Western Asset vê fluxo externo voltar ao Brasil

Desde 2005 no Brasil, após a aquisição das operações de gestão de recursos do Citigroup no mundo pela Legg Mason, a Western Asset Management consolidou-se como a maior casa independente estrangeira no país. Com R$ 42 bilhões sob seu guarda-chuva, a operação local é o pedaço de uma engrenagem de mais de US$ 420 bilhões mundo afora, com ramificações em cidades tão diversas como Pasadena, Hong Kong, Londres, Melbourne, Nova York, Cingapura, Tóquio ou Dubai. Considerando-se a Legg Mason, a holding que é dona das nove gestoras, o total de ativos do grupo supera os US$ 750 bilhões.

Dois dos principais executivos da subsidiária brasileira, Marc Forster, atual diretor-executivo da asset, e Paulo Clini, o diretor de investimentos, vieram dos quadros do Citi e puderam vivenciar todo um arsenal de crises em mais de uma década. Agora, eles experimentam uma nova transição com a chegada de Jair Bolsonaro (PSL) à presidência da República. Conseguem ter a percepção tanto do estrangeiro que olha para o Brasil, quanto do grande institucional local e do investidor pessoa física que a asset alcança por meio dos serviços de private banking e das plataformas de investimentos.

Para Clini, o capital externo, que tinha deixado o Brasil de lado na classe dos emergentes, tende a olhar com mais carinho para os ativos domésticos após a definição eleitoral. A depender da formação da equipe econômica, dos ministérios e da direção que será dada para as reformas, a bolsa e os juros longos são as classes que podem trazer os melhores resultados para o investidor.

Num horizonte de 24 meses, o executivo calcula uma valorização composta de 15% a 20% para o Ibovespa ao ano, o que o levaria para mais de 120 mil pontos. Na renda fixa, pode haver condições para a Selic permanecer baixa e subir a 7,5% ao ano, dos 6,5% atuais. Haveria, portanto, muito prêmio a capturar em relação ao que está nos preços dos derivativos de juros hoje, na casa dos 10%, 10,5% para vencimentos entre três e quatro anos.

Clini destaca que a exposição dos estrangeiros ao Brasil está abaixo da média histórica, não só pelas mazelas políticas e econômicas do país, como também por um cenário global mais adverso.

“Os países emergentes como um todo ficaram fora de moda”, diz. A mudança de humor veio a partir de fevereiro, junto com o receio de que a recuperação da atividade econômica nos EUA pudesse forçar o banco central americano a apertar a política monetária de forma mais contundente.

“Se os EUA estão crescendo, se há chances de o Fed subir os juros mais agressivamente, e isso vai trazer estresse [o investidor questionava], por que diabos ficar em emergentes, tomar risco se aparentemente os EUA eram uma aposta mais segura e rentável”, observa Clini. Ele lembra que a piora percebida nos fluxos externos após a greve dos caminhoneiros e a interrupção surpresa do ciclo de corte de juros pelo Comitê de Política Monetária (Copom), em maio, coincidiu com um momento de fuga de capitais de outros emergentes como Turquia, Argentina, África do Sul ou Rússia. “O reflexo disso é que hoje os investidores globais estão subalocados em Brasil.”

Os primeiros sinais de confiança já vieram na valorização dos ativos brasileiros às vésperas do segundo turno, à medida que ficou mais claro que o candidato com agenda mais liberal sairia vencedor. “Olhando à frente há razão para ser otimista. Na medida que o governo faça a lição de casa, caminhe na direção das reformas e da ortodoxia econômica, o estrangeiro pode se antecipar e voltar para o Brasil. Isso pode até se contrapor aos receios de subida de juros nos EUA.” O cenário base da gestora americana é que a ausência de pressões inflacionárias permitirá que o Fed prossiga no seu plano de voo, de subir os juros vagarosamente, levando o teto da taxa referencial a 3% ao ano.

Clini ressalva que passada a eleição, os mercados não se livrarão da influência política e que o foco agora está na capacidade do governo Bolsonaro coordenar e colocar em prática medidas que ajustem as contas públicas, como a reforma da Previdência, e outras de ordem microeconômica. Se tudo caminhar conforme o esperado são as classes de maior risco, como bolsa e juros longos, as que podem ser mais beneficiadas. Num segundo momento, o crédito privado é uma terceira via a ser explorada.

Apesar de a Western já ter uma parcela significativa em fundos globais e ativos estrangeiros (cerca de R$ 3 bilhões), como opção para o brasileiro investir no exterior, é a alocação local que faz mais sentido agora, reforça Clini.

Foi a diversificação de produtos e da base de investidores que fez com que a Western conseguisse se firmar no mercado brasileiro numa fase em que outras casas ligadas a grupos estrangeiros desistiram de fazer gestão local ou encolheram no Brasil, caso de UBS, J.P. Morgan ou Schroders.

“O fato de não ter o gestor exposto a um certo produto dá uma certa tranquilidade para o investidor”, diz Forster. Do lado do passivo, não ficar nas mãos de um grande investidor, de uma grande plataforma também traz alguma estabilidade, acrescenta.

Mais de 65% do bolo de recursos sob gestão da Western está nas mãos de investidores institucionais, como fundos de pensão e institutos de previdência de Estados e municípios. O restante escoa por canais de distribuição como multi-family office, serviços de private banking e plataformas de investimentos. “Como nunca atuamos no negócio de ‘wealth management’ [de gestão de fortunas], sempre fomos muito bem recebidos em qualquer canal de distribuição”, afirma Forster.

Era 24 de junho de 2005 quando um dos executivos do Citigroup Asset Management no Brasil chegou abrindo portas, anunciando: “Bem vindos à Legg Mason”, conta Forster, que está na liderança local desde 2015. A sensação de, da noite para o dia, se tornar uma casa sem vínculo com um grande banco e tirar dos cartões de visita a logomarca azul com o guarda-chuva vermelho foi estranha, lembra. “Era um momento em que o mercado de gestão independente estava tentando engrenar e ainda não crescia no país”, diz. “Hoje, o ranço de ser gestora independente sumiu, o mercado dá valor a isso.”

A intenção, prossegue, é pulverizar ainda mais a base de investidores, com a distribuição em plataformas como XP, Guide e Genial. “É um plano que está a pleno vapor.” Os fundos globais são outro braço que ele vê grande potencial, dado que os bancos que ainda dominam a distribuição de investimentos no país não “têm a manufatura de gestão no exterior”.

Fonte: Valor Econômico

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