Volatilidade em Wall Street prejudica o mercado de fusões e aquisições

Os executivos que atuam em Wall Street estão entre os maiores otimistas. Pergunte a eles como vai a atividade de fusões e aquisições e, sorridentes, dirão que nunca estiveram tão ocupados. Mas agora essa resposta vem com uma ressalva importante: está difícil concluir as operações.

“Tenho um par de negócios gigantescos em preparação, mas estou lutando para concretizá-los”, reclamou um executivo de uma boutique de investimentos. Outro consultor lamentou que cinco de suas transações desmoronaram dias antes do prazo previsto para que fossem anunciadas.

O culpado? A turbulência dos mercados de ações dos EUA. Os principais fatores por trás da expansão da área de fusões e aquisições nos últimos cinco anos – uma economia estável, empresas tentando reforçar o crescimento de receitas e financiamento atraente – continuam inalterados, mas a volatilidade do mercado acionário está se mostrando um intruso indesejado.

Nos últimos anos, a volatilidade do mercado tem sido uma das poucas coisas que têm impedido executivos-chefes e diretores de embarcar em transações verdadeiramente transformadoras.

“Ninguém quer ser a última pessoa a fazer um grande negócio pagando um alto preço-justo antes de o humor do mercado virar”, disse Stephen Arcano, chefe de fusões e aquisições do Skadden Advogados. “Por isso o que se vê, às vezes, em tempos de maior volatilidade são os compradores recuando e demorando um pouco mais para decidir se vão seguir adiante.”

Existem dados para sustentar as experiências anedóticas dos negociadores, de acordo com um estudo de Vineet Bhagwat, Robert Dam e Jarrad Harford, três professores americanos de finanças.

“Usando o Vix [indicador de volatilidade conhecido como “termômetro do medo” de Wall Street] como nossa ‘proxy’ para a incerteza momentânea, descobrimos que o aumento de um desvio padrão no índice está associado com uma queda de 6% na atividade de transações anunciadas no mês seguinte. O efeito é significativo estatisticamente, e se equipara a uma redução mensal em transações de quase US$ 4 bilhões”, conclui o estudo, que analisou quase 200 mil operações entre 1990 e 2013. Desde outubro, o Vix tem estado acima da média para o ano, o que ajuda a explicar por que os negociadores estão vendo desaceleração.

Se você for avaliar a atividade da área de fusões e aquisições a partir de seus principais números, estaria desculpado por pensar que tudo está indo muito bem. Neste ano, o valor total das transações americanas está em US$ 1,2 trilhão, a terceira maior cifra desde 2000, de acordo com dados da Dealogic. Todavia, medido pelo número total de operações, este tem sido o pior ano desde a virada do século, com apenas pouco mais de 5 mil operações anunciadas.

Negociações gigantescas, como a que levou a Walt Disney a assumir o controle dos maiores ativos da Century Fox por US$ 71 bilhões, ou a aquisição pela IBM da pioneira de software Red Hat, por US$ 34 bilhões, estão segurando o nível de atividade geral, mas as transações menores, que são uma medida melhor da situação da área de fusões e aquisições, estão caindo.

“Quando se entra na terra da volatilidade, é realmente como uma bala atingir outra bala. É muito, muito difícil conseguir concluir uma operação quando os dois grupos de ações estão flutuando por aí”, disse Michael Carr, corresponsável por fusões e aquisições do Goldman Sachs.

E a volatilidade está atingindo as ambições das empresas abertas mais do que as das firmas de private equity, que nos últimos meses têm executado uma série de grandes aquisições, incluindo a compra pela Brookfield da unidade de energia da Johnson Controls, por US$ 13,3 bilhões, e a negociação conjunta da Veritas e do fundo hedge Elliott Management para comprar a Athenahealth, por US$ 5,7 bilhões. E há especulações em torno do interesse da Thomas Bravo na criadora de antivírus Symantec por cerca de US$ 10 bilhões, ou a atenção que a Blackstone e a Apollo estão dando aos ativos à venda da General Electric.

Diferentemente das companhias abertas com apetite para aquisições, as empresas de private equity são protegidas do escrutínio dos investidores. “Empresas abertas têm que se preocupar com quanto tempo será necessário para fechar uma transação, quão rápido as sinergias prometidas serão de fato entregues e como os acionistas reagirão à transação”, disse Blair Effron, cofundador da consultoria Centerview. “Os fundos de private equity podem adotar uma perspectiva de três a cinco anos e não estão expostos a uma reação imediata dos cotistas. Isso significa que podem se concentrar mais no cenário econômico do que no dia a dia da volatilidade de mercado.”

Chris Ventresca, corresponsável global por fusões e aquisições do J.P. Morgan, concorda: “Não é como se as empresas de private equity tivessem que fazer imediatamente uma oferta pública inicial do ativo que estarão comprando na semana que vem, por isso elas podem ver além da volatilidade atual”.

As empresas de private equity têm estado sob enorme pressão para gastar as pilhas de dinheiro que levantaram, mas têm tido dificuldades para fazer isso porque os preços estavam muito altos ou simplesmente porque foram ultrapassadas pelas ofertas feita por empresas.

De qualquer maneira, a volatilidade, aliada a um mercado de títulos de alta rentabilidade ainda relativamente estável está finalmente dando-lhes a vantagem. “Por muito tempo as empresas de private equity eram as que faziam as ofertas menores e as empresas abertas estavam mais bem posicionadas para ganhar negociações. Agora estamos em um mundo em que elas podem ser de fato bem-sucedidas”, disse Effron.

Enquanto as empresas de private equity desfrutam de sua recém obtida vantagem, a maior e mais incômoda questão é se um mercado de ações em declínio é apenas um prelúdio de uma recessão que poderia encerrar uma das mais longas fases de expansão da área de fusões e aquisições da história. Mas tentar adivinhar quando a onda de fusões e aquisições vai finalmente arrebentar é uma perda de tempo que ninguém está de fato interessado em acertar, mesmo que todo mundo saiba que vai acontecer e mais cedo do que tarde.

Fonte: Valor Econômico

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