‘Tempestade perfeita’ no setor de tecnologia

Com negócios lucrativos e enormes pilhas de dinheiro em caixa, as grandes companhias americanas de tecnologia têm concentrado, há anos, o interesse de Wall Street e impulsionado os principais índices do mercado acionário – mas essa euforia pode estar no fim.

Nas últimas semanas, muitas das principais companhias do setor têm sido atingidas por uma onda sem precedentes de venda de ações. Os investidores temem a aprovação de regulamentações mais rígidas sobre essas empresas; os reflexos do aumento da taxa de juro americana; e os potenciais efeitos da guerra comercial entre Estados Unidos e China.

Pesa também o fato de que, após sucessivos períodos de aumento nas vendas e no lucro, a velocidade de crescimento dos grupos de tecnologia esteja ficando irremediavelmente mais lento. Nenhuma atividade econômica consegue crescer sem limites – e as gigantes da tecnologia, a despeito de sua força, não são exceção.

Ontem, a queda pronunciada das ações de tecnologia, iniciada um dia antes, se espalhou por setores como produtos de consumo e energia, contagiando praticamente todo o mercado americano. O índice Nasdaq, que caíra 3% na segunda-feira, teve nova queda, de 1,7%. O Dow Jones Industrial Average e o S&P 500 ficaram, ambos, em vias de fechar no vermelho este ano.

A Apple fechou com queda de 4,80%, ontem, depois cair 3,96% na segunda-feira. O desempenho aproximou a criadora do iPhone do chamado “bear market”, que é quando uma ação chega perto de se desvalorizar 20% em relação a seu pico mais recente. O mesmo ocorreu com a Alphabet, controladora do Google. Netflix, Amazon e Facebook acompanharam a tendência.

Levantamento preparado pelo Valor Data mostra que em 30 dias, entre 20 de outubro e 20 de novembro, o grupo das “Faangs” – Facebook, Amazon, Apple, Netflix e Alphabet – perdeu mais de US$ 471 bilhões em valor de mercado. De US$ 3,25 trilhões, passou a valer US$ 2,78 trilhões. Todas essas ações tiveram queda no período. A maior redução, de 19,75%, ocorreu na Netflix; a menor, de 6,76%, na Alphabet.

Em 12 meses, porém, o quadro é diferente. Entre os dias 20 de outubro deste ano e de 2017, o valor conjunto das “Faangs” aumentou em US$ 121,2 bilhões. O preço das ações variou, dependendo da empresa: aumentou para Amazon, Apple e Netflix; e teve leve variação para baixo para Alphabet. O Facebook apresentou queda significativa, de quase de 26% no período.

O desempenho mais equilibrado em 12 meses indica que a desconfiança do investidor nas “Faangs” – e no setor de tecnologia, por extensão – é relativamente recente. Muitas companhias continuam a apresentar vendas em alta e lucros significativos, mas seus resultados estão ficando abaixo das previsões iniciais. Alguns grupos passaram a fazer alertas, reduzindo suas expectativas de expansão para os próximos meses.

Analistas temem que a curva de desaceleração das vendas se acentue perigosamente em 2019, por causa da diminuição do consumo nos EUA, principal mercado das companhias de tecnologia no mundo. O temor é que a elevação da taxa de juro, como defendem as autoridades monetárias americanas, afaste o consumidor das lojas, ou dos serviços digitais, no ano que vem.

Na segunda-feira, John Williams, presidente do Federal Reserve de Nova York, disse que o banco central americano vai continuar aumentando o juro de maneira lenta, mas consistente. “As taxas de juro ainda estão muito baixas”, afirmou. “Já as aumentamos, mas ainda estão em um nível baixo.”

Para as titãs da tecnologia, a fuga dos consumidores pode ser acompanhada de investidores, que debandariam na direção de papéis considerados mais seguros, como bancos e outras intituições financeiras. Segundo especialistas, essa seria uma espécie de correção de rumo em relação à concentração dos negócios em torno do setor de tecnologia dos últimos anos.

Uma redução mais brusca no consumo seria particularmente grave para companhias como a Apple. Enquanto rivais como Facebook e Google estão ancorados na publicidade digital, a Apple depende, em grande parte, da venda de equipamentos sofisticados e caros para o público. Nas últimas semanas, a empresa cortou os pedidos de produção de todos os três modelos de smartphone que apresentou em setembro, informou o jornal “The Wall Street Journal”. No caso do iPhone XR, os planos originais de produzir 70 milhões de unidades teriam sido reduzidos para um terço desse volume.

A notícia do corte, atribuída parcialmente à demanda mais fraca que a esperada, puxou para baixo as ações de fornecedores, principalmente fabricantes de chips, que já vinham em queda. Nos últimos 30 dias, a Nvidia viu seus papéis perderem 35% do valor. Na AMD, a queda é de quase 19%. A Intel apresentou alta de 8% no período, mas permanece longe do pico atingido em junho.

O cenário é agravado pela tensão comercial entre EUA e China. A ameaça do governo de Donald Trump de elevar os impostos sobre a importação de insumos chineses pode acabar, na prática, encarecendo os produtos americanos de tecnologia, que dependem de componentes estrangeiros.

No front das companhias de internet, que lidam com enormes volumes de dados dos usuários, o temor é quanto à possibilidade de imposição de regras rigorosas, capazes de restringiri a atuação dessas companhias e abrir caminhos para multas mais pesadas. A pressão por regras mais duras tem aumentado em diversos países, em resposta aos recentes escândalos de uso indevido das informações.

No domingo, Tim Cook, diretor-presidente da Apple, disse que novas regulamentações para a indústria de tecnologia são “inevitáveis”, segundo informou o jornal “Financial Times”. Segundo Cook, “o livre mercado não está funcionando” e os políticos vão intervir.

As declarações do chefe da Apple se seguem a uma nova crise no Facebook, que está sob pesadas críticas desde o vazamento de dados para a consultoria política Cambridge Analytica, revelado no início do ano.

O foco, desta vez, é a interferência dos russos na eleição presidencial americana de 2016, com o uso de notícias falsas e campanhas de desinformação no Facebook. Na semana passada, o “New York Times” publicou uma extensa reportagem na qual afirma que o comando da companhia sabia mais do que informou sobre o episódio, entre outras revelações. Um dia depois, Mark Zuckerberg, diretor-presidente do Facebook veio a público, em entrevista a jornalistas do mundo inteiro, para defender a empresa.

A despeito dos problemas do setor, porém, a maioria dos analistas concorda que não há uma bolha de internet, como a que estourou no início dos anos 2000. As condições, dizem eles, são muito diferentes. A bolha pontocom era caracterizada por um grande número de companhias novatas, com modelos de negócio vagos e poucas perspectivas de chegar ao lucro rapidamente. O cenário atual é marcado pela concentração em um número pequeno de empresas, com modelos comerciais comprovados e escala global.

Fonte: Valor Econômico

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