Superação da Recuperação Judicial: Balela!

Em casos de processos de crise empresarial tenho visto, de forma corriqueira, a desconcertante afirmação por parte de empresários, geralmente os donos e diretores das companhias em Recuperação Judicial, seus advogados e até mesmo profissionais da mídia, que determinada empresa superou a crise e está saindo da “recuperação” judicial, como se isso representasse, de forma real, uma melhora econômico-financeira e a superação efetiva dos problemas que, supõem-se, ficaram para trás.

Não é bem assim!

Temos de separar conceitos e ritos judiciais que a empresa em recuperação judicial está obrigada a seguir do mundo real em que ela está vivendo, inserida dentro de um mercado cada mais exigente e desafiador.

Aprovar o plano de recuperação judicial e ter este homologado pelo juiz ou mesmo ter o encerramento da RJ declarado pela Justiça, em razão do trânsito do prazo de 2 anos de fiscalização direta do Judiciário, não traz relação direta com a saúde financeira da companhia em termos de geração de caixa, expansão empresarial e ganho de mercado.

É certo que a empresa obteve carência e deságios generosos de credores, frente a ameaça de quebra, onde estes nada receberiam num processo longo e desgastante de falência. Como consequência, estes credores, então antigos fornecedores e parceiros, olham a empresa com desconfiança, machucados pelas concessões realizadas e pelo prejuízo absorvido.

Muitos empresários enxergam a recuperação judicial como a saída para todos os males, mas este processo pode ser a antessala para novos problemas e crises, se a análise real e técnica da situação que levou a empresa à penúria não gere ações claras e mudanças estratégicas, táticas ou estruturais. Caso contrário, novas dividas serão criadas e logo ali na frente nova recuperação judicial ou mesmo falência voltará a pauta principal da empresa.

Os anos em recuperação judicial levam a empresa, na maioria dos casos, a uma defasagem tecnológica, a perda de bons funcionários, e consequente capacidade inovativa e de investimento; a perda de uma cadeia de suprimentos competitiva, a baixo fluxo de caixa, a falta de acesso a financiamentos e altos custos financeiros.

A tese de superação da recuperação “Judicial” não resolve nenhuma dessas questões. Apenas alivia parte do problema passados. Cuidado, portanto, com afirmações otimistas demais e análises simplistas dos fatos.

Superar a recuperação judicial, atualmente, é cumprir ritos judiciais, apenas isto!

Não é garantia da superação da crise econômico-financeira e a volta natural do crescimento da corporação.

Há empresários em situação de crise que vivem em um mundo paralelo. A crise é passageira e a culpa é sempre do mercado. Internamente segue tudo como está, mesmo com olhos de desconfiança de todos à sua volta. Buscam a RJ apenas para ceifar dívidas ao limite de deságios ofensivos que atordoam credores de toda natureza. Excesso de imaginação é perigoso. Vale aqui um conhecido pensamento de Alberto Einstein:

“a imaginação é mais importante que o conhecimento. Pois o conhecimento é limitado, enquanto a imaginação abraça o mundo”.

O problema é quando o mercado e credores compram a “imaginação” do empresário e esquecem de, minimamente, olharem os fatos, os números e o motivo real que levou a empresa à recuperação judicial. Superação da crise, neste contexto, só na mente do empresário, nos autos do processo e no release à imprensa.

Fabrício Scalzilli

Sócio da Nello Investimentos

Advogado em M&A e Distressed Market

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4 COMENTÁRIOS
  • gilberto gonçalves
    3 de maio de 2019

    Prezado Nello Voce tem razão total.Se não houver uma mudança interna no empresario,de nada adiantara a recuperação judicial.A meu ver é melhor falir pois menos mal acarretara no futuro essa improcedencia empresarial.O empresario tem que entender que tomar um remedio mas continuar a alimentar abusos,só acarretara ao corpo mais males.E a mudança começa em fazer aquilo que justamente o empresario não fez pois não gostava de fazer e muito menos de pensar

    Eng Gilberto Gonçalves http://www.negocioscompravenda.com.br

  • Telmo Schoeler
    5 de maio de 2019

    Caro amigo Fabrício.
    Profundamente verdadeiro e correto! Pena que sejamos poucos os que pregam e divulgam isso. Recuperar uma empresa é um ato de GESTÃO, suportado por APOIO JURÍDICO e aporte de DINHEIRO novo. Fora disso, não há solução. Fazer um transplante de coração requer adequada sala cirúrgica + cirurgiões + um anestesista. Achar que o anestesista basta é tão utópico quanto os 95% do povo e advogados que acham que é um ato meramente JURIDICO….. por isso é que o Brasil tem a maior taxa de insucesso em recuperações no mundo!.
    abs

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