Somos todos vira-latas!

O respeitável economista e filósofo Eduardo Giannetti traz no livro “O Elogio do Vira-Lata e Outros Ensaios” uma visão romântica do “complexo do vira-lata”, expressão cunhada inicialmente pelo escritor Nelson Rodrigues, em 1958, para definir a falta de confiança da seleção brasileira, que jogaria a copa do mundo daquele ano, mas cujo sentido se ampliou para um sentimento de inferioridade nacional e, por outro lado, até certo encantamento e valorização com aquilo que vem de fora do país.

Giannetti tenta mostrar em seus ensaios um outro lado desta realidade, na qual o vira-lata representaria a miscigenação genética e cultural do Brasil; ou seja, o que temos de melhor. Para o economista é preciso ter orgulho de ser vira-lata e valorizar esta condição brasileira.

Faço essa introdução para sintetizar abaixo o que é realmente ser um “vira-lata” no Brasil. Dias atrás, voltando com minha família de uma viagem ao exterior, incluindo meus dois meninos, um de dois anos e meio e outro de apenas cinco meses, chegamos ao aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, por volta das 5h30 da manhã, com conexão para Porto Alegre às 7h40. Havia, portanto, tempo suficiente para passar pelo controle de passaportes, pegar as malas — o que realmente fizemos em 30 minutos — e ir ao balcão da Gol Companhia Aérea, para pagarmos os cartões de embarque, entregarmos novamente as malas e irmos para o outro terminal de voos domésticos.

Para minha incredulidade, mesmo chegando vários voos àquele horário, havia apenas uma única funcionária da companhia Gol trabalhando. Como resultado, a fila não parava de crescer e, naquela situação, minha família e outros certamente perderiam suas conexões. A título comparativo, outra companhia área, naquele dia, no lado oposto ao da Gol, tinha entre 6 e 8 posições, acredito, e todas estavam abertas com pessoas trabalhando e dando vasão ao volume de chegadas e conexões.

Levei imediatamente a minha preocupação à funcionária da cia. Gol quanto ao risco de perda da conexão, ainda mais tendo a necessidade de troca de fraldas e minha esposa de amamentar o nosso bebê, após 8 horas cansativas de voo. Fomos recebidos com tamanha rispidez e descaso que espantava. Sem sequer olhar nos nossos olhos, a funcionária disse simplesmente que havia apenas ela trabalhando, que não poderia fazer nada e que aguardássemos, sendo assim, na fila. Mais chocante foi quando, na fila, percebi uma senhora que aparentava entre 80 a 85 anos de idade, de cadeiras de rodas, sendo empurrada por seu filho, cansada e debilitada, sem qualquer prioridade ou assistência.
Vendo-me naquela situação, dei-me conta exatamente do que é ser um vira-lata no Brasil, e como o país nos recebe. Mais chocante foi ver as pessoas na fila, conformadas, cansadas, num silencio constrangedor. Não havia forças para lutar contra aquela situação. Fato é que muitas empresas, como a Gol Cia. Aérea, tratam-nos como vira-latas; o governo, que deveria fiscalizar e aplicar a lei, trata-nos como vira-latas e, para piorar, os próprios cidadãos se tratam como vira-latas.

Como se imaginava, às 7h horas da manhã, arrastando-se, chega uma segunda funcionária, que vai ao seu balcão e ali fica alheia ao cenário de incredulidade. Várias pessoas numa fila, não sabendo, por falta de estrutura mínima da referida companhia aérea, se conseguiriam pegar a conexão para suas cidades. Nosso embarque era 7:10. Depois de quase uma hora na fila, a referida funcionária finalmente dá um sopro de vida e grita: “embarque para Porto Alegre aqui!”, agora com uma urgência frenética e praticamente dizendo “corram para não perderem o voo”. Zarpamos em direção ao terminal doméstico, sem a certeza de que conseguiríamos embarcar. Absurdamente, logo em seguida nos deparamos com uma das maiores piadas de planejamento e construção em aeroportos brasileiros: os elevadores de Guarulhos — minúsculos, com capacidade para 2 a 5 pessoas, no máximo, conforme volume de malas e carrinhos. Deveriam estar preparados para transportar de 20 a 30 pessoas ou, quem sabe, numa ambição chinesa, até mesmo 100! Os sábios engenheiros e planejadores então fizeram dois elevadores minúsculos, achando que assim o problema de fluxo estaria resolvido. Resultado: mais fila e perda de um tempo precioso na gincana que a Gol, para economizar em estrutura e ganhar mais dinheiro por parte do aeroporto. Na ida, apenas a título ilustrativo, desistimos de esperar o elevador, pois do térreo ao segundo piso o mesmo sempre está cheio; Impossível acessar esses elevadores em horário de pico!

Chegamos no embarque na última chamada para o voo, com cara de reprovação dos funcionários da Cia. Gol, como se fossemos nós os culpados, fora a cena constrangedora dos passageiros nos encarando com a certeza de que nós realmente havíamos nos atrasado. Corremos tanto entre os terminais — o tempo médio é de oito minutos caminhando — que devemos ter completado o trajeto na metade do tempo, empurrando carrinho, mala de mão e criança de colo. Chegamos exaustos, suados, sem chance de atender nossos filhos e suas necessidades mínimas, entre as conexões de São Paulo a Porto Alegre.

Nesse momento vem a frase arrebatadora do piloto: “em respeito aos nossos clientes, as portas foram fechadas no horário e estamos prontos para partir”. Esse deve ser o momento sublime que o economista e filósofo Eduardo Giannetti talvez enxergue no vira-lata brasileiro. Eu não, caro Giannetti. Para mim, vale a máxima universal aplicada em qualquer país sério: cidadão é cidadão, cliente é cliente e vira-lata é vira-lata! Somos hoje todos vira-latas no Brasil!

Fabricio Nedel Scalzilli

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