SoftBank mira Oyo após revés com WeWork

Um antigo casino Hooters em Las Vegas vai ser o improvável campo de testes para uma revolução no setor hoteleiro.

Nesta semana, a propriedade com 675 quartos ganha nova marca, sob a bandeira da Oyo, a rede hoteleira indiana de baixo custo que revolucionou seu mercado doméstico e atualmente vem abrindo em média um hotel por dia no Reino Unido e nos Estados Unidos.

Alimentada com fundos do grupo de tecnologia japonês SoftBank, a Oyo aspira a tornar-se a maior rede hoteleira do mundo.

“É muito difícil prever um limite para o tipo de crescimento, de retorno e de participação de mercado que esses sujeitos poderiam alcançar”, disse Munish Varma, sócio-gerente do Vision Fund, do SoftBank. “Se você tem um produto que atende a um propósito e resolve uma necessidade bem real do consumidor […], por que não deveria se expandir?”

Ainda assim, os ambiciosos planos (que vieram acompanhados de um rápido aumento no valor da empresa) levantam dúvidas sobre o ritmo de crescimento de uma empresa que pode vir a ser a maior aposta já feita pelo SoftBank.

A Oyo divulga que já é a terceira maior rede de hotéis do mundo, com cerca de 1 milhão de quartos, incluindo os de casas de férias, atrás apenas da Marriott International e da Hilton Worldwide. Ritesh Agarwal, fundador e executivo-chefe da Oyo, diz que o grupo se encaminha a superar seus maiores concorrentes em 2023.

“Se você comparar com outras cadeias tradicionais de hotéis que chegaram a mais de 1 milhão de quartos, vai ver que todas tardaram pelo menos meio século”, disse Agarwal, que fundou a Oyo aos 19 anos, em entrevista no apertado escritório da empresa, nos subúrbios de Delhi. “A Oyo Hotels levou, talvez, cinco anos e meio para conseguir chegar lá.”

Os esforços da Oyo para ganhar escala vêm gerando comparações com outro investimento do SoftBank, a WeWork, que também gerencia propriedades. Nesta semana, a empresa acabou vendo-se obrigada a adiar sua oferta pública inicial de ações, diante da relutância dos investidores quanto aos valores, ao modelo de negócios e à governança. Para tentar salvar a operação, executivos de banco de investimento passaram a cogitar preços cerca de 30% do valor de US$ 47 bilhões vinculado ao último investimento do SoftBank.

O próprio valor da Oyo já atrai os holofotes. Em julho, uma rodada de investimentos de US$ 2 bilhões na empresa foi encabeçada pelo próprio Agarwal. Foi uma transação incomum. Ele captou um empréstimo para poder comprar as participações que pertenciam à Lightspeed e à Sequoia.

Segundo fontes a par do negócio, um consórcio de grupos financeiros japoneses, incluindo o Nomura e o Mizuho, ajudou a custear a compra de Agarwal.

Além de emprestar esse dinheiro, posteriormente o consórcio japonês fez um investimento na Oyo que implicou uma avaliação de US$ 10 bilhões para a rede hoteleira, o dobro da avaliação anterior. Nomura e Mizuho não quiseram comentar o negócio, que ainda precisa ser aprovado por acionistas e autoridades reguladoras.

Agarwal, que com a compra elevou sua participação de cerca de 10% para 30%, disse que a transação foi uma mostra de confiança no modelo de negócios e deu à Oyo recursos para crescer. Especialistas do setor, contudo, questionam a lógica do negócio. Dizem ser a primeira vez que veem um fundador pegar tanto dinheiro emprestado para reinvestir no próprio negócio.

Uma fonte próxima ao processo disse que a avaliação de US$ 10 bilhões foi resultado de “um cálculo extremamente conservador”.

A receita divulgada pela Oyo, porém, é minúscula em comparação às de rivais consolidados. A unidade indiana registrou receita de 4,2 bilhões de rupias indianas (US$ 59 milhões) no ano encerrado em março de 2018, cerca de 3,5 vezes a mais do que no exercício anterior, e projetou aumento para 14,8 bilhões de rupias para o próximo. O prejuízo aumentou para 3,6 bilhões de rupias, o que Agarwal atribuiu aos investimentos em tecnologia e pessoal.

A receita da Marriott International foi de US$ 5,3 bilhões nos últimos 12 meses, segundo a S&P Capital IQ. A da Hilton Worldwide foi de US$ 3,7 bilhões. A alta valorização da Oyo pode ser explicada em parte por sua expansão a outros países e áreas de negócios. Seu maior êxito consistiu em arregimentar, por meio de franquias ou arrendamentos, hotéis indianos desmazelados, impor-lhes um padrão básico e usar sua plataforma on-line para conseguir reservas de forma eficiente. A partir daí, entrou em um rápido processo de diversificação geográfica e de atividades. A empresa está presente em 80 países, avançou para os segmentos de hotéis de alto e médio padrão e entrou em áreas como as de serviços de bufê para casamentos e de “coworking” – espaços de trabalho compartilhados.

O SoftBank e outros investidores, entre os quais o Airbnb, dizem que a Oyo adotou um modelo com potencial revolucionário ao conseguir organizar o deteriorado setor de acomodações de baixo preço.

No empreendimento em Las Vegas, a Oyo aliou-se à investidora imobiliária Highgate para comprar o casino Hooters por US$ 135 milhões, renomeá-lo e administrá-lo como uma propriedade Oyo.

A essência da Oyo consiste em uma equipe de mais de 2 mil engenheiros e cientistas de dados. Eles analisam números e mais números para descobrir, por exemplo, quais ajustes nas comodidades oferecidas pelos hotéis vão gerar mais receita por quarto ou como podem alterar os preços de acordo com o número de voos chegando à cidade em questão naquele dia. A Oyo sustenta que a taxa de ocupação em seus hotéis, em média, sobe de 25% para 75% nos primeiros três meses sob sua gestão.

“A maioria das empresas rotuladas de desestabilizadoras são, por definição, um pouco controversas”, disse Bejul Somaia, sócio na empresa de investimentos Lightspeed. “Isso é essencial quando se está tentando conquistar um grande setor estabelecido e atuar de forma diferente.”

Especialistas no setor hoteleiro mostram surpresa com a rápida transformação da Oyo. “Tem sido de um modo furtivo como eles abriram muitos hotéis, em muitos países”, disse Richard Clarke, analista sênior na Bernstein. “Eles estão entre as dez maiores empresas de hotel do mundo e a maioria das pessoas nem sabe que existem.” Ainda continua uma interrogação, contudo, se a Oyo vai conseguir conquistar hóspedes e donos de hotéis estrangeiros da mesma forma que fez com os investidores. Por exemplo, em seus principais mercados até agora, a Índia e a China, 80% ou mais dos hotéis não têm bandeiras, segundo o Morgan Stanley, o que deu ao grupo a possibilidade de atrair um grande conjunto de propriedades desprezadas. Na Europa e na América do Norte, essa proporção diminui muito. Nos EUA, 70% dos hotéis já estão ligados a alguma rede estabelecida. (Colaboraram Arash Massoudi e Leo Lewis) 
Por Benjamin Parkin e Kana Inagaki — Financial Times, de Gurgaon e Tóquio.

Fonte: Valor Econômico

 

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