Shark Tank e o Gaúcho

Gosto de assistir ao Shark Tank, tanto o programa americano quanto o brasileiro, este transmitido pela Sony Channel. Na essência são empreendedores que apresentam seus negócios a investidores, os quais podem ou não fazer uma proposta para serem sócios da empresa e alavancar o negócio.

Alguns dos “tubarões” como são conhecidos os investidores são João Appolinário da Polishop, Robinson Shiba da China in Box, Caito Maia da Chilli Beans e Cristiana Arcangeli, empresária do mercado de beleza e alimentos funcionais, todos empreendedores de sucesso.

Dias atrás esteve no palco um gaúcho fazendo a apresentação de um produto tipicamente do sul. A apresentação dele foi um fracasso, por falta de identidade e estratégia quanto ao produto e mercado de atuação, mas esse não é o objetivo da análise. Duas coisas me chamaram a atenção.

Em linhas gerais a maioria dos empreendedores que vão ao Shark Tank propõe um valor de aporte na empresa por um percentual que varia, acredito, entre 10% a 30% do negócio. O gaúcho ofereceu 21,5% (número hipotético) do seu negócio por um aporte. Por que não 20% ou 25%? Acredito que nem ele sabia. Mas para mim, que vivo o mercado de fusões e aquisições no Brasil e no exterior tenho uma desconfiança.

O gaúcho tem um apego patrimonial intenso ao seu negócio, muitas vezes até prejudicial. Cada 0,5 por cento contabilizado na conta faz o empresário repensar se avança, em contraste com negociações mais amplas e flexíveis, principalmente com empresários de outras regiões e culturas. Claro que todas as regras tem exceções. Mas no caso do sul ainda vejo muito empresários preferindo ter 100% de pouco ou quase nada do que repartir, mesmo tendo menos participação, em algo com valor e perspectivas maiores.

A segunda questão foi mais emblemática. Os tubarões baixaram o pau no negócio do gaúcho e, por unanimidade, decidiram não investir, cada um explicando seu motivo. Qual foi a reação dele? Ficou brabo, visivelmente aborrecido. Mal se despediu, virou as costas e foi embora.

Em contraste, a maioria dos aspirantes a empreendedores que lá vão absorvem as críticas, tiram grandes aprendizados e dicas das análises dos investidores e empreendedores de sucesso. O gaúcho ficou brabo e irritado. O termo “tubarões” vem muito bem a calhar nesta relação.

No sul a maioria dos empresários ainda enxerga no investidor uma ameaça, um risco, quase um inimigo. Pouco afeito a mudanças, o sulista não aceita com bons olhos sequer a abordagem de investidores, quanto mais a intromissão deste no negócio, o qual poderia contribuir com uma nova visão estratégica, trazer complementariedade, tecnologia, novas experiências, network e etc. Escutamos isso de muitos fundos de investimento que querem investir no sul. O caminho ainda é longo para transformar essa cultura. Em algum momento, o “tubarão” pode ser um grande parceiro para navegar em mares revoltos, frente a um futuro de incertezas e tantas mudanças.

Fabricio Scalzilli

Sócio da Nello Investimentos

Gostou? Compartilhe!Share on Facebook
Facebook
Tweet about this on Twitter
Twitter
Share on LinkedIn
Linkedin
NENHUM COMENTÁRIO

ESCREVA UM COMENTÁRIO