Private equity tenta avançar sobre empresas no Japão

Quando “Vulture” chegou às telas de TV japonesas em 2007, o drama capturou com perfeição a mentalidade defensiva da época. Na séria, o “vulture” (abutre) em questão comandava uma firma de “private equity”
estrangeira. Suas armas? As trapaças de Wall Street. Suas vítimas? O Japão corporativo.

Pouco mais de uma década depois, a série está sendo refilmada. Mas na era do Abenomics o tom mudou. Na nova “Vulture”, o capital de risco é retratado como uma força positiva – resgatando o Japão corporativo do fracasso
empresarial, da administração viciada e das tentativas hostis de “takeover”.

Ela coincide com as apostas mais audaciosas que a indústria global de aquisições alavancadas está fazendo no país. Os gestores de private equity acreditam que o aumento das pressões por governança, as realidades de uma sociedade em processo de envelhecimento e uma massa crítica de negócios bem-sucedidos aliviaram os piores medos do Japão com a pilhagem estrangeira.

Uma série de negócios surpreendentes, que vão da venda da Calsonic Kansei, da Nissan, para a KKR por US$ 4,3 bilhões à aquisição dos negócios de chips de memória da Toshiba pela Bain por US$ 17,7 bilhões foram aprovados em grande parte sem reação pública. A Bain Capital até mesmo concluiu a aquisição da Asatsu-DK, a terceira maior agência de propaganda do Japão, por US$ 1,2 bilhão, que era amplamente vista como “hostil” por ter ido inicialmente contra a vontade dos vendedores na WPP do Reino Unido.

O credo básico é que o Japão, frequentemente com conglomerados dispersos, não só vai se dobrar às pressões motivadas pela governança para a conquista e a venda de empresas, como as administrações finalmente entender o lado positivo de se fazer isso.

“Tradicionalmente, a tendência nas empresas japonesas é a de quanto maior você é, melhor você é. O trabalho do CEO era fazer crescer os conglomerados pelos quais eles eram responsáveis”, diz Hiro Hirano, o presidente da KKR no Japão. “Isso está mudando gradualmente e agora começamos a ver surgir uma tendência em que as companhias estão tomando a decisão estratégica de reduzir seus tamanhos para se concentrar nos negócios principais.”

Um recorde de US$ 5,7 bilhões foi levantado no ano passado pelos fundos de private equity voltados para o Japão. No mesmo período, US$ 21,6 bilhões foram levantados por fundos que incluem o Japão em seu foco geográfico. Nos dois casos, os valores foram mais que o dobro do total do ano anterior, segundo a empresa de pesquisas Preqin.

Alimentadas por muito crédito barato oferecido pelos bancos japoneses, as aquisições alavancadas somaram US$ 24,5 bilhões em 2017 – mais que o total combinado dos cinco anos anteriores e o suficiente para convencer muitos de que um ponto de inflexão foi alcançado.

Hoje, a questão central – na medida em que o private equity global se encontra sobre uma pilha de reserva de caixa
designada para o Japão e com uma nova onda de grupos de buyout se preparando para abrir escritórios em Tóquio pela primeira vez – é se a mudança de clima se traduzirá ou não em uma nova onda de negócios.

Preocupações surgiram com a grande queda nas transações neste ano, juntamente com o cancelamento de uma série de leilões de ativos. “Estamos vendo uma mudança de mentalidade entre os CEOs japoneses”, diz Ryo Fujii, presidente da Permira no Japão, “mas uma das razões de não termos uma decolagem do mercado de operações de private equity é que as companhias japonesas estão em muito boa forma no momento”.

“Com frequência um negócio se torna viável quando os ativos passam por um período de dificuldade. No momento, eles podem negociar e como não precisam do negócio, podem dizer ‘se você pagar uma boa soma, podemos pensar no assunto’.”

O presidente no Japão de um grupo global de private equity diz que as preocupações com a direção da política do Banco do Japão (BoJ) poderão romper o atual impasse. Participantes do mercado estão cientes de que os preços das ações japonesas vêm sendo apoiados pelas compras anuais de 6 trilhões de ienes em fundos negociados em bolsas de valores pelo BoJ.Embora muitas empresas japonesas estejam mais baratas em relação a outros mercados, as especulações recentes de que o programa de afrouxamento quantitativo começará a ser reduzido em breve, poderão convencer algumas companhias a começar a discutir suas aquisições antes que elas comecem a perder valor.

Um impulso adicional, segundo analistas, é a mudança na cúpula da Keidanren, a poderosa federação empresarial do
Japão. Antes de se tornar o novo presidente da Keidanren no começo deste ano, Hiroaki Nakanishi comandou a Hitachi – uma companhia que se transformou num exemplo acabado para a venda de ativos considerados não essenciais. Zuhair Khan, estrategista-chefe da Jefferies em Tóquio, está entre aqueles que afirmam haver um “otimismo cauteloso” de que sob a liderança atual da Keidanren, a oposição às reformas pelo governo – e ao tipo de atividade representado pelas firmas de private equity estrangeiras – deverá diminuir.

O otimismo em torno do potencial do “private equity” no Japão convenceu a Blackstone a acrescentar, neste ano, uma equipe de compras alavancadas às suas operações de investimentos em imóveis no Japão. O grupo de private equity americano Apollo e dois fundos europeus também estão recrutando profissionais para uma iniciativa parecida.

Atsuhiko Sakamoto, “roubado” da Bain Capital no ano passado para o lançamento das operações da Blackstone, diz estar perto de fechar o primeiro acordo de “buyout” da Blackstone no Japão, acrescentando que há um bom motivo para otimismo com o fluxo de negócios no país.

“Há uma tendência clara”, afirma ele. “Esses conglomerados levam tempo para preparar desinvestimentos, às vezes mais de um ano enquanto eles medem o interesse, mas eu acho que alguns deles serão feitos no próximo ano.”
Diante do tamanho da economia do Japão e do número de conglomerado com retornos fracos para os acionistas e muitas subsidiárias não muito prezadas, Sakamoto diz que será preciso apenas uma pequena mudança para criar muitos negócios mais na área de private equity. “Se apenas 10% ou 20% das empresas japonesas mudarem, isso será grande o suficiente e terá um grande efeito de cauda. Oxalá os abutres estejam na espera.

Fonte: Valor Econômico

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