Na surdina, Special Dog cresce no setor de ração

Em Santa Cruz do Rio Pardo, a 345 km da capital paulista, quase na divisa com o Paraná, o complexo industrial da Special Dog chama a atenção de quem trafega pela rodovia Castelo Branco, a BR-374. É pouco conhecida no eixo Rio-São Paulo, mas vem ganhando participação no mercado de ração para cães e gatos, e já figura entre as maiores fabricantes do país.

O crescimento nas vendas tem sido registrado em especial nas cidades do interior de São Paulo, Paraná, Santa  Catarina, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul. Se for considerada a receita do ano passado, de R$ 650 milhões, a participação de mercado da Special Dog chega a 3,4%. Em toneladas vendidas, a fatia é de 6,6%.

Em valor de vendas, o mercado é liderado pela Mars (dona das marcas Pedigree, Whiskas, Royal Canin e Eukanuba), com 16,5%. Em seguida aparecem a brasileira Premierpet (dona das marcas Premier, Golden e Vitta Natural), com 14,2%, e a Nestlé (dona de marcas como Purina, Pro Plan, Dog Chow e Friskies), com 5,2%, segundo dados da Euromonitor International.

  Erik Manfrin, diretor administrativo e sócio-fundador da empresa, diz que a criação da Special Dog foi uma resposta a crises pelas quais a família passou ao longo de décadas. Seu pai, Natale Manfrim – que ganhou um “m” em vez de “n” no sobrenome por um erro de cartório -, começou a produzir café em Santa Cruz do Rio Pardo na década de 1960.

Em 1975, após uma forte geada que dizimou a produção de café no Estado, os Manfrin decidiram trabalhar com a venda de quebrados de arroz, aproveitando que a cidade é um polo de beneficiamento do cereal.

Em 1988, a família montou uma fábrica de farinha de arroz, com o nome Manfrim Industrial e Comercial Ltda. A fábrica fornecia farinha de arroz para a área de nutrição infantil da Nestlé e para indústrias cervejeiras – na época, para a Brahma e para a Antarctica. As vendas para as cervejarias foram encerradas por volta de 1994, quando as cervejarias substituíram o arroz pelo xarope de milho. A produção da farinha para a Nestlé foi descontinuada neste ano.

“Tentamos por três anos produzir xarope de arroz, mas não deu certo. Foi aí que um distribuidor nosso disse que se usava farinha de arroz em ração animal e sugeriu que produzíssemos ração a um preço mais baixo que as grandes marcas”, diz Manfrin.

Companhia inaugurou fábrica de alimentos úmidos para cães e gatos, com investimento de R$ 80 milhões

Em 1998, já sob comando dos irmãos Erik e Mario Sergio Manfrin, que atua hoje como diretor industrial da Special Dog, a família começou a desenvolver o projeto de produção de ração animal. Em 2001, inaugurou a primeira fábrica, com capacidade para 100 toneladas de ração por mês e uma equipe de 30 pessoas.

A empresa começou vendendo apenas um tipo de ração para cães, em embalagens de 8 e 15 quilos, para cidades no interior de São Paulo e do Mato Grosso do Sul. Atualmente, oferece 50 linhas de alimentos para cães e gatos e produz 180 mil toneladas de ração seca por ano.

A companhia ocupa uma área de 218 mil metros quadrados em Santa Cruz do Rio Pardo, onde mantém quatro fábricas, escritório administrativo, centro de distribuição, silos para armazenar grãos e um restaurante com área de descanso para os 988 funcionários. Uma horta orgânica, também no terreno da empresa, abastece o restaurante. O complexo ainda tem laboratórios de testes, estação de tratamento de água e esgoto e estacionamento e oficina para a frota própria de 120 caminhões.

Na semana passada, a companhia ampliou essa estrutura, ao inaugurar sua primeira fábrica de alimentos úmidos para cães e gatos, com capacidade inicial para produzir 7,2 mil toneladas por ano. A unidade é fruto de um investimento de R$ 80 milhões. Desse total, R$ 56 milhões foram recursos próprios e o restante, empréstimo bancário.

A nova unidade ocupa 5 mil metros quadrados e poderá produzir, inicialmente, 600 toneladas de alimentos úmidos por mês ou 260 unidades por minuto. “À medida que houver demanda, a fábrica tem capacidade para produzir 1,2 mil toneladas por mês, aumentando um turno de produção”, diz Manfrin.

Do lado de fora da fábrica, mesmo sob um calor de 35 Cº, não se sente o cheiro das matérias-primas, algo comum em indústrias de ração animal. “A fábrica possui um sistema de exaustão que captura e trata os odores gerados na produção dos alimentos úmidos, para não vazar para o ambiente”, explica o gerente industrial da Special Dog, Octávio Soberon. O sistema de exaustão com tratamento de odores recebeu investimento da empresa de R$ 1,5 milhão.

Dentro da unidade, o aroma predominante é de carne crua, principal ingrediente usado na formulação das rações úmidas. As fórmulas são desenvolvidas por veterinários e engenheiros alimentares da Special Dog e são enriquecidas com nutrientes, como minerais, ômega 3 e leveduras hidrolisadas, que melhoram a imunidade do animal.

A produção é automatizada, desde a moagem e mistura de ingredientes até a embalagem em caixas com 12 sachês ou embalagens de alumínio. Os equipamentos são controlados por uma equipe de 30 pessoas.

Os equipamentos instalados na fábrica têm origens em diferentes países – Japão, Bélgica, França, Holanda, Irlanda, Estados Unidos – e inclui fornecedores como Fortress Technology, Incomaf, Zeppelin Systems, Multipond, Toyo Jidoki, Loma Systems e Kuka Industrial Robots.

Na unidade de produção de ração úmida são fabricados 30 produtos, entre sachês de ração em pedaços de 85 gramas para gatos e de 100 gramas para cães. Também são produzidos patês, embalados em vasilhas de alumínio, de 100 gramas para gatos e 150 gramas para cães.

“Pensamos em fazer o patê em lata, como os concorrentes, mas em pesquisas de mercado ouvimos dos consumidores que sobrava alimento na lata e esse resto acabava sendo desperdiçado”, afirma Manfrin. As latas, produzidas por concorrentes como Mars e Nestlé, têm de 280 a 290 gramas por unidade.

Erik Manfrin afirma que os produtos da companhia são distribuídos atualmente para 38 mil pontos de venda, em um raio de até 800 km de distância da fábrica, em sete Estados. Neste segundo semestre, a Special Dog começou a vender a marca na cidade de São Paulo.

A empresa também avalia começar a vender em Brasília e Belo Horizonte. “Estamos avaliando montar um centro de distribuição na região Sul, para atender melhor a região”, diz Manfrin.

A Special Dog também exporta parte da produção. Erik Manfrin diz que, no ano passado, a empresa embarcou menos de 1% do volume produzido para Chile, Bolívia e Uruguai. “A exportação por enquanto serve de aprendizado”, diz o executivo.

A Special Dog registrou no ano passado receita de R$ 650 milhões e espera atingir neste ano entre R$ 720 milhões e R$ 750 milhões, o que representa um crescimento de 11% a 15% em relação ao ano passado. A companhia não divulga seu balanço, mas Erik Manfrin diz que a operação é lucrativa.
Fonte: Valor Econômico

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