Na Kepler Weber, Previ dá espaço à Tarpon

Com quase 95 anos, a fabricante de silos agrícolas Kepler Weber virou o ano de cara nova. Acionista histórica, a Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, deixou o capital da empresa após mais de duas décadas. No mercado, a avaliação é que o movimento deve ser seguido pelo BB Investimentos, abrindo espaço a investidores privados em um momento de juros baixos no qual o negócio de armazenagem agrícola poderá, finalmente, deslanchar.

A saída dos sócios ligados ao Estado tem potencial para ampliar a liquidez dos papéis da Kepler Weber, algo que já começou a ocorrer – neste início de 2020, as ações da empresa movimentam, em média, R$ 2,4 milhões por dia, incremento de 70% em relação à média do último ano. Ainda é um montante ínfimo se comparado à capitalização da companhia. Na bolsa, a Kepler está avaliada em R$ 800 milhões.

Entre os investidores, a gestora Tarpon se sobressaiu. O fundo, que montou uma posição de 5% na fabricante ainda em 2018, ampliou a aposta ao longo do ano passado e foi o principal comprador da fatia de 17,5% que pertencia à Previ. No início de janeiro, a Tarpon atingiu uma participação de 25% no capital, se tornando o na indicação de membros para o conselho de administração da Kepler. Procurada, a Tarpon não quis comentar.

À frente da empresa há um ano e meio, Piero Abbondi recebeu a reportagem na sede administrativa da Kepler, na capital paulista, mas foi econômico ao tratar das alterações na composição acionária. “É um orgulho ter investidores  de ponta [como a Tarpon]”, afirmou o presidente da companhia gaúcha.

O executivo também foi cauteloso ao abordar a possível venda da fatia do BB Investimentos, que na semana passada pediu a suspensão da assembleia extraordinária de acionistas que elegeria um membro do conselho de administração. A própria instituição havia indicado Rogério Simonetti Marinho para substituir Fernando Florêncio Campos, um ex-funcionário do BB que se aposentou e renunciou ao conselho em novembro. Com a suspensão, o encontro de acionistas foi remarcado para 24 de janeiro.

De acordo com Abbondi, a suspensão da assembleia de acionistas está relacionada à “documentação interna” do banco, mas alguns investidores viram o movimento como uma reação prévia à venda das ações. Procurado pela reportagem, o BB não comentou. O banco estatal tem 17,5% da companhia.

Paralelamente às mudanças societárias, a aposta na Kepler Weber é que, com a redução estrutural da taxa de juros, o interesse por investimentos em silos aumentará. Nos planos de Abbondi, 2020 será o ano de confirmar a sustentabilidade dos resultados da companhia, que vêm melhorando. O grupo gaúcho saiu do vermelho e, após um corte nos custos fabris, ampliou a margem bruta de 10,3% para quase 24% entre janeiro e setembro do ano passado.

Para manter o resultado, Abbondi conta com um crescimento da produção agrícola cada vez mais baseado em ganhos de produtividade – há menos áreas de fronteira para serem abertas. Nesse cenário, os silos podem fazer a diferença no resultados dos agricultores. De posse de um estudo do consultor agrícola Carlos Cogo, o executivo argumentou que, com silos próprios, o produtor pode obter um preço quase 10% maior pela soja se beneficia-lá em equipamentos como os feitos pela Kepler.

Em um equipamento típico da companhia gaúcha, o produto não fica apenas “guardado”. Tanto é assim que Abbondi prefere classificar a Kepler como uma companhia do segmento de “pós-colheita”. O grão fica sob constante monitoramento e, antes de ir ao armazém, é limpo e passa por um processo de secagem – os compradores exigem no máximo 1% de impurezas no grão e taxa de 13% de umidade.

O potencial de crescimento da Kepler, que fatura cerca de R$ 700 milhões por ano, é grande dado o histórico déficit de armazenagem no país, de acordo com o executivo. Enquanto nos EUA a capacidade é equivalente ao volume de produção, no Brasil há uma lacuna da ordem de 30%. Quando se considera a presença de silos nas fazendas, a diferença também é relevante – 50% nos EUA e 16% no Brasil. Outro vetor da expansão da Kepler será o setor de logística (portos, ferrovias e rodovias), que deve demandar mais entrepostos.
Fonte: Valor Econômico

 

 

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