Instituições pequenas e estrangeiras têm mais prejuízos

O setor bancário é um dos mais lucrativos do Brasil e, mesmo em períodos de crise, isso não costuma ser diferente. Ainda assim, existe um grupo de bancos que vêm registrando prejuízos frequentes no país nos últimos anos, formado basicamente por instituições de menor porte e estrangeiras.

As informações da base de dados do Banco Central (IFData) mostram que, dos 37 semestres disponíveis na série história, desde o início de 2000, 13 bancos registraram prejuízo em dez ou mais períodos. Sinal de que essa situação não é sustentável no longo prazo, dessas 13 instituições, 3 já deixaram de funcionar. Atualmente existem 134 bancos em atuação no Brasil, sem considerar as cooperativas de crédito.

A instituição que mais dá prejuízo de forma repetitiva no Brasil é o Banco de la Nación Argentina, com resultados negativos em 30 dos 37 semestres. Focado no fomento ao comércio externo, em especial adiantamento sobre contratos de câmbio (ACC), atua no Brasil desde 1959 e nos seis primeiros meses deste ano o banco teve prejuízo de R$ 3,391 milhões, motivado por um saldo negativo de R$ 5,729 milhões no resultado da intermediação financeira.

A carteira de crédito é de R$ 75,572 milhões, composta quase exclusivamente por financiamento a pessoas jurídicas, em especial empresas de médio e grande porte da indústria de transformação.

Procurado, o Banco de la Nación, que é controlado pelo governo argentino, afirmou que não comentaria os prejuízos registrados no Brasil.

O segundo banco que mais tem tido prejuízo no Brasil é o Société Générale (SocGen), com números negativos em 24 de 37 semestres. Questionado pela reportagem, o banco não comentou seus números e disse apenas que “está presente no Brasil há 50 anos e continua comprometido em ajudar seus clientes com produtos e serviços nas áreas de corporate e institucional”.

Em 2015, o então presidente do SocGen no Brasil, Francis Repka, disse ao Valor que, com o encerramento das atividades das subsidiárias Cacique e Pecúnia – focadas no financiamento ao consumo -, o banco aproveitaria a folga de capital para direcionar os recursos às operações com empresas. Recentemente, ele foi substituído por Luis Fidel Emiliano Sainz Carrillo, mas a estratégia parece estar dando resultado. No primeiro semestre deste ano, o banco teve lucro de R$ 77,698 milhões, revertendo o prejuízo de R$ 73,171 milhões em igual período do ano anterior e marcando seu melhor resultado no Brasil na história.

A carteira de crédito de R$ 2,762 bilhões do SocGen aumentou 24,7% no primeiro semestre na comparação anual e hoje 99,9% são financiamentos para empresas, com destaque para R$ 1,21 bilhão em adiantamentos sobre contratos de câmbio (ACC). As receitas de prestação de serviços e tarifas bancárias cresceram 63,6%.

O terceiro pior banco do levantamento quando se trata de resultados líquidos é o Ficsa, com prejuízo em 19 de 37 semestres. Desde janeiro de 2013, os acionistas deliberaram pela suspensão de novas operações de crédito e até hoje o banco se dedica à administração da carteira remanescente e dos recursos próprios, com o propósito de desalavancar sua estrutura.

Para tanto, o Ficsa liquidou antecipadamente fundos em direitos creditórios, recomprou todas as carteira cedidas com cláusula de coobrigação e realizou cessões dos respectivos créditos recomprados sem retenção de riscos e benefícios.

“Nossos prejuízos sequenciais decorrem dessa paralisação (carregamento dos custos prudenciais desde 2012). Os sócios aguardam melhor momento do país para decidirem o destino do banco”, disse o Ficsa. O banco foi adquirido em 2008 pela Quis Participações, cujo controle é dividido entre o dono das Organizações Polimix, do setor de cimento, e as holdings de investimentos pessoais de dois sócios do grupo Equipave.

Na base de dados do BC, o maior prejuízo semestral já registrado por um banco no Brasil foi o de R$ 6,955 bilhões contabilizado pelo Santander no primeiro semestre de 2001, com a compra e reestruturação do Banespa. No mesmo período, a Caixa registrou prejuízo de R$ 4,393 bilhões, em meio ao processo de reformulação dos bancos federais. O terceiro maior prejuízo da história, de R$ 3,156 bilhões, foi registrado pelo Banco Santos no segundo semestre de 2004, em meio à intervenção do Banco Central, após a descoberta de fraudes contábeis na instituição.

Claudio Gallina, diretor da área de instituições financeiras da Fitch Ratings, aponta que o setor financeiro no Brasil é bastante resiliente, como demonstra a recente crise econômica, uma das piores já registradas no país, mas que não trouxe impactos tão grandes para os bancos. Ele afirma que os períodos de turbulência na maioria das vezes vêm acompanhados de inflação elevada, o que faz o Banco Central subir os juros e, assim, acaba beneficiando os bancos.

No caso dos bancos estrangeiros, apesar de às vezes essas instituições registrarem prejuízo nas operações no Brasil, elas ajudam a captar clientes para a matriz no exterior, o que justifica sua manutenção no país.

“Mesmo operando com prejuízo aqui, numa contabilidade interna dos bancos essas filiais podem ser viáveis e até dar lucro”, explica o especialista. Outro ponto é que muitas instituições estrangeiras têm exposição ao dólar e, assim, a variação cambial pode ter influência nos resultados aqui.

Já para bancos pequenos e médios, a inadimplência normalmente afeta de forma mais intensa os resultados do que em uma grande instituição financeira. Isso acontece porque a concentração de crédito é maior, ou seja, mais focada em um número menor de clientes. “Se esse banco tem de provisionar algum crédito importante, isso acaba tendo um impacto grande”, diz Gallina, lembrando que essas instituições também têm custos de captação maiores.

Outro ponto é que os bancos de pequeno e médio portes passaram a enfrentar nos últimos anos uma competição maior das grandes instituições em linhas nas quais elas inicialmente não tinham tanto interesse, como o crédito consignado, por exemplo. Mais recentemente, os bancos menores ainda viram crescer a concorrência com fintechs.

Um terceiro grupo entre as instituições que dão prejuízo é formado por entidades de fomento. Por terem uma função social, elas acabam operando linhas que não seriam consideradas atraentes pelos bancos tradicionais. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) só aparece com prejuízo em 3 dos 37 semestres analisados. No primeiro semestre de 2003, teve saldo negativo de R$ 2,401 bilhões, afetado por provisões para dívidas da AES, Cemig e governos estaduais.

Fonte: Valor Econômico

 

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