A Importância da Gestão do Risco nas Empresas e o Valor da Previsibilidade

O que não é medido não é controlado. Por mais que pareça um clichê corporativo, em matéria de análise de riscos, as empresas brasileiras ainda têm muito a evoluir e a aprender sobre o valor da previsibilidade. O risco não medido pode atingir, em cheio, o caixa da companhia. Quando isto ocorrer, por mais insignificante que seja o prejuízo, é preciso acender logo a luz amarela e tomar providências imediatas. Riscos mal administrados têm grande probabilidade de gerarem custos financeiros, encarecerem a operação, tirarem o foco e a eficiência e, por consequência, diminuírem as margens do negócio. Em um cenário mais grave coloca a empresa em um espiral de crise sem fim até a quebra definitiva.

A maioria das empresas não possui nenhuma ferramenta de medição e controle de riscos. Sequer entende o significado real dessa palavra na operação cotidiana. As que possuem tal controle, em sua maioria, adotam ainda uma gestão centralizada de riscos ou estruturam esta área voltada unicamente para a esfera financeira. Com o foco unidirecional, no entanto, acabam avaliando apenas os números da corporação e acompanhando somente alguns indicadores de mercado. A análise, portanto, é rasa, levando-se em conta a complexidade e conectividade do mundo atual. Não podemos esquecer que a economia está globalizada e as avaliações precisam sempre levar em conta não só o contexto setorial e a conjuntura das regiões onde a empresa está inserida, mas dezenas ou centenas de outras variáveis que podem e vão em algum momento influenciar o negócio.

As auditorias internas, quando existentes, preocupam-se apenas com questões operacionais e de controle interno de processos, as quais, muitas vezes, estão apenas na cartilha ou no manual corporativo. O problema é que, quase sempre, são documentos descolados da realidade porque há anos não passam por qualquer revisão.

Os comitês de gestão de riscos corporativos são órgãos ainda mais raros e não permanentes nas instituições. Além disso, quando existentes são adotados apenas para auxiliar de forma técnica o comitê de auditoria ou gerar relatórios complexos e sem grande utilidade. Fazem uma gestão de vitrine, sem consistência e, portanto, sem resultado prático. Casos recentes de grandes companhias envolvidas em escândalos, corrupção e descontrole reforçam esta tese.

É preciso ter a compreensão que empresas são organismos vivos, sujeitas aos mais diversos fatores internos e externos. Seus relacionamentos e a forma como aproveitam as oportunidades também precisam ser levados em consideração e estar sempre na órbita do administrador. É importante, neste cenário, que o Conselho de Administração, responsável pela condução do planejamento estratégico da empresa e que deve, em última instância avaliar a situação, estruture esta área e cobre de seus executivos e gestores que o risco não seja trabalhado apenas no estrito cumprimento legal e regulatório. Tem de ir mais além! É preciso ser ousado, até mesmo criativo e, ao mesmo tempo, saber avançar com segurança, construindo mecanismos em constante evolução para prever as incertezas e propagar a transparência. É a boa governança colocada em prática.

Outras questões relevantes também precisam ser calculadas quando queremos avaliar melhor o andamento dos negócios e o seu resultado no curto, médio e longo prazos. Entre elas estão as mudanças regulatórias, o aumento do preço dos insumos, a concentração de clientes e fornecedores, falha na implementação de novas tecnologias, em downgrades nos ratings para obtenção de crédito, as mudanças na legislação trabalhista e até mesmo alterações de rumos na diplomacia entre nações, que podem afetar a rotina empresarial. No Brasil,particularmente, temos ainda a peculiaridade que até o passado é incerto e as regras podem mudar no meio do caminho.

A própria lei anticorrupção e ajustes de compliance podem ser vistos como risco para operações acostumadas a trabalhar em mercados poucos transparentes e com entes públicos. O Big Data e a gestão da informação em muitas empresas são ainda tratados apenas como questão operacional e de oportunidade de desenvolvimento de novos produtos e serviços direcionados ao cliente. Ainda há pouca análise de gestão de risco e de impacto futuro desta realidade nas operações. É preciso estar atento a esses movimentos e aos impactos que podem produzir.

É bom lembrar o exemplo norte-americano. O governo dos Estados Unidos, após a crise que assolou o sistema financeiro, tomou várias decisões. Aperfeiçoou seu sistema de controle, realizando anualmente nas instituições financeiras e bancos comerciais um teste de estresse. O objetivo é verificar se essas instituições possuem capital suficiente e gestão preparada e ágil para entrar em ação em caso de um cenário negativo. São analisados os riscos de crédito, operacional e de trading. Dependendo do resultado, as empresas são compelidas a emitir ações, tomar empréstimos ou emitir debêntures para recompor o caixa. Certamente tais ações se darão com dinheiro mais em conta do que em cenários de crise aguda ou mais especulativo. As empresas, portanto, tem dados, informações e exemplos – positivos e negativos – suficientes para serem protagonistas de seus atos e estratégias e não apenas serem obrigadas pela Justiça a mudarem de rumo, de gestores e até mesmo de mercados em que atuam de forma não transparente ou até desleal.

Neste contexto, nos próximos anos veremos, junto com a evolução da governança corporativa nas empresas, as áreas de risco ganhando mais relevância e investimento; trazendo e formando pessoas capacitadas a trabalhar o valor da previsibilidade. Afinal, vale o velho ditado: é melhor – e mais barato – prevenir do que remediar.

Fabricio Scalzilli

Sócio da Nello Investimentos

 

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