Fundo vira alternativa e dá crédito para startups brasileiras

Veículo só trabalha com dívida real, não conversível em ações.

Com as taxas de juros menores no mercado brasileiro, um grupo de empresas que não conseguia ter acesso a crédito começa a encontrar alternativas. A gestora SP Ventures, que estruturava fundos de participação para investimento em startups, montou um veículo cujo propósito é atuar com dívida para esse perfil de empresas.

“É um modelo bastante usado nos Estados Unidos, mas ainda recente no Brasil por conta da taxa de juros e do próprio mercado de venture capital, que há cinco anos era incipiente”, diz Gabriela Gonçalves, executiva à frente do negócio. “Como as taxas diminuíram e o mercado de venture capital ganhou volume, lançamos o primeiro fundo para financiar essas empresas não com compra de capital, mas crédito”, afirma a executiva.

O fundo captou R$ 140 milhões, sendo metade dos recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) – o aporte do banco veio após uma concorrência entre propostas de gestoras no segmento de venture capital. “A participação do banco permite desenvolver uma nova classe de ativos”, diz Gabriela.

Segundo ela, o fundo só trabalha com dívida real, não conversível em ações. O instrumento pode ser debênture ou cédula de crédito bancário (CCB). “O mais comum é debênture porque a CCB é um pouco mais cara, já que tem IOF [Imposto sobre Operações Financeiras]”, explica.

No mercado americano, é comum que o empreendedor por trás da startup tome dívida para adiar ou reduzir uma rodada de capitalização com venda de ações. “É uma forma de não ser muito diluído ou postergar essa diluição para quando a empresa ganhar tamanho”, diz Gabriela. Mas o financiamento também pode ser usado para capital de giro, para operações de fusões e aquisições (M&A) ou para reestruturações societárias. “Pode ser para recomprar a participação de um investidor anjo, por exemplo”, explica.

O fundo dá crédito para empresas que tenham faturado até R$ 90 milhões no ano anterior e que já tenham um negócio relativamente estabelecido e em busca de crescimento – para fases iniciais, quando ainda está em teste de produto, por exemplo, o risco de crédito elevado exigiria taxas de juros maiores, anulando a vantagem desse tipo de empréstimo.

O cheque mínimo para as transações é de R$ 1 milhão e o máximo, de R$ 14 milhões, com um limite para o endividamento correspondente a 30% do faturamento da empresa. “As taxas variam conforme as garantias, que são adaptadas para a realidade dessas companhias. Muitas não têm um contrato firme de fornecimento, por exemplo  então não tem como fazer cessão de recebíveis”, diz ela. “O mais comum é ter um aval e conta vinculada.”

Dois financiamentos já foram feitos. Um para a Ambar, empresa de tecnologia de construção, que patenteou um modelo de obra voltado para baixa renda que reduz custos; e a outro para a Le Gourmet, fabricante de alimentação saudável que tem contrato de fornecimento com o grupo Pão de Açúcar.

A gestora SP Ventures tem como acionista a Jive, especializada em compra de carteiras de crédito. Em alguns contratos de dívida, o fundo inclui uma cláusula de “kicker” em eventos de liquidez – ou seja, um prêmio ao qual o fundo tem direito caso a empresa seja bem-sucedida em levantar capital ou ser vendida. “A ideia é mostrar que o dinheiro emprestado ajudou a empresa a chegar até ali. Para o fundo oferecer uma taxa fixa mais atrativa e alinhar os objetivos, fica com esta parte no risco”, afirma a executiva.
Fonte: Valor Econômico

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