Estrangeiros aumentam compras de ativos locais

Depois de uma sequência de altas com o resultado do primeiro turno das eleições, os ativos brasileiros cederam à
realização de lucros, em resposta à combinação de um exterior menos favorável ao risco e ruídos no campo político
doméstico. A despeito da correção, dados confirmam que os investidores estrangeiros continuam entrando no mercado brasileiro, confiantes de que o ambiente por aqui é hoje construtivo tanto para o câmbio quanto para a renda variável.

O ingresso de capital externo na bolsa já atinge R$ 2,21 bilhões em outubro até o dia 8. Só naquele pregão, o primeiro depois do pleito eleitoral, o Ibovespa subiu 4,57% e os estrangeiros colocaram R$ 1,67 bilhão em ações – a maior entrada em uma única sessão desde 26 de janeiro. Vale notar que a forte colocação de recursos ocorreu em um dia de volumes reduzidos em Wall Street, com um feriado que manteve fechado o mercado de renda fixa americana.

E a confiança dos investidores já aumentava nos dias que antecederam a votação, conforme mostram os números de fluxo cambial do Banco Central (BC). Pela via financeira, o país recebeu US$ 3,497 bilhões entre os dias 1º e 5 de outubro. Foi o primeiro saldo positivo dessa carteira em mais de dois meses e o mais robusto desde janeiro do ano passado, considerando intervalos de uma semana.

Foi naquele período que as pesquisas de intenção de votos mostraram que Jair Bolsonaro (PSL) – candidato mais alinhado à agenda do mercado – abriu vantagem sobre seu principal adversário, o petista Fernando Haddad (PT).

“Com o resultado favorável ao mercado do primeiro turno, decidimos aumentar ainda mais nossa exposição [em Brasil]”, dizem os especialistas do Citi. O forte desempenho de Bolsonaro no primeiro turno confere ao militar “uma boa chance” de vencer a disputa em 28 de outubro. “Isso antecipa o rali do real que seria esperado após uma disputa acirrada”.

Ontem, após o fechamentos dos mercados, saiu a primeira pesquisa de intenção de votos do Datafolha do segundo turno. Bolsonaro aparece com 58% dos votos válidos e Haddad, com 42%, dentro do cenário esperado pelos analistas do mercado.

Após o “rali” recente, no entanto, veio o momento de embolsar lucros. Ontem, o ajuste das posições em câmbio e bolsa levou o dólar a interromper uma sequência de três quedas e subir 1,42%, cotado a R$ 3,7617, enquanto o Ibovespa foi à mínima do dia, de 83.679 pontos, em baixa de 2,80%. Na semana, porém, o dólar ainda acumula queda de 2,41% ante o real e o Ibovespa ainda sobe 1,65%.

A correção foi estimulada, em parte, pela alta dos rendimentos dos títulos de renda fixa americana, que detonaram ordens de vendas em diversos mercados de renda variável global. Mas, se não bastasse a pressão externa, o investidor também recebeu mal as declarações do favorito na disputa para a Presidência: Bolsonaro se opôs à privatização do “miolo” das estatais Eletrobras e Petrobras. O discurso é diferente do que Paulo Guedes, coordenador econômico do candidato, vinha pregando até então. Em reação aos comentários, a Eletrobras ON caiu 9,21% e a PNB, 8,36%.

“As declarações de Bolsonaro acabam gerando um ruído e receios de mudança em uma estratégia pró-privatização que parecia mais clara e mais firme. A indefinição e a incerteza também são fatores-chave para o mercado e têm um preço”, afirma Vitor Suzaki, analista da Lerosa Investimentos.

Tampouco agradaram as sinalizações de que, sob o possível governo de Bolsonaro, a reforma da Previdência será mais gradual, deixando claro que a execução das medidas tende a se tornar o próximo fator de ansiedade no mercado. “Um pequeno comentário de Bolsonaro sobre a reforma da Previdência já foi suficiente para deixar o mercado com um pé atrás”, destaca Robério Costa, economista-chefe do grupo Confidence.

Os especialistas notam que ainda é cedo para dizer que os investidores devem desmontar suas apostas nos ativos locais, já que a perspectiva para o cenário pós-eleição ainda é bem mais construtivo atualmente. “O dia mais negativo no exterior foi preponderante para estimular o movimento de redução da posição em ativos de risco”, diz o analista da Lerosa.

Na avaliação do economista Silvio Campos Neto, da Tendências, não dá para se tomar “a ferro e fogo” os comentários dos políticos nesta etapa da disputa eleitoral. “São declarações que não trazem muitos detalhes e servem para agradar o público”, diz o especialista. Por isso, a “lua de mel” com o mercado parece seguir firme. “Mas [o mercado] poderia ir para cima do governo após a eleição e exigir os detalhes da política econômica”, acrescenta.

Fonte: Valor Econômico

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