Empresas trocam escala por inovação em aquisição

A transformação de negócios por modelos digitais e a pressão de novos concorrentes estão alterando o perfil das transações de fusões e aquisições (M&A, no jargão em inglês) no mundo todo. Um levantamento global exclusivo da consultoria Bain&Company mostra que, dos US$ 3,4 trilhões em transações de M&A em 2018, as operações em busca por uma inovação ou uma habilidade específica ou por digitalização de modelo de negócio e desenvolvimento de tecnologias superaram, pela primeira vez, as operações por ganho de escala em um segmento em que as empresas já atuavam.

As chamadas operações por escopo responderam por 51% das aquisições, ante 49% das transações por escala. No universo de escopo, 15% das operações buscavam especificamente uma nova capacidade que a companhia não detinha — há três anos, essa participação era de 2%. Esse crescimento de operações por escopo em resposta à indústria de disrupção e desafios de crescimento pode ser “a maior mudança no mercado de M&A na última década”, aponta o estudo.

Conforme a pesquisa, a busca por segmentos complementares acontece em um cenário de crescimento mais lento nos mercados desenvolvidos e também emergentes, que impede um maior crescimento orgânico e demanda novas aquisições. Isso é combinado com o nível de consolidação já existente em certos segmentos, que só permite que as companhias cresçam em outras direções com aquisições, por limitações regulatórias.

Já a escolha por escopo se dá por produtos ou serviços inovadores, normalmente digitais, e transações entre setores, que possam transformam e redefinir o modelo de negócio combinado, resultante da operação. “Algumas operações unem escopo e escala. A transação entre a Embraer e a Boeing é um bom exemplo disso”, diz André Castellini, sócio da Bain. “A Boeing fez uma operação por escopo, para um segmento de aeronave que ela não tem e por conhecimento de engenharia, enquanto a Embraer fez uma escolha por escala.”

A operação de aquisição pelo Itaú de parte da plataforma de investimentos XP também se enquadra nessa nova fase de busca por escopo, aponta Castellini. Além de a XP trabalhar com plataforma on-line, a companhia atua em um segmento que não é central para o banco — que, normalmente, procuraria aquisições de outras instituições financeiras. “É um exemplo clássico da busca por um modelo de negócio diferente e pelo universo digital”, diz.

Nessa mesma linha, algumas das maiores transações globais de M&A do ano passado não foram para tornar a empresa maior ou gerar custos de sinergia, mas para complementar tecnologias e serviços e ampliar áreas de atuação ou especialidades. A Amazon comprou a PillPack, uma farmácia on-line, a Roche comprou a Flatiron, uma provedora de software especializada em registros médicos oncológicos, e a Medtronic comprou a Mazor Robotics, que fabrica um sistema que guia cirurgias de coluna. Nas aquisições por tecnologia, a Alibaba comprou a provedora on-line de entrega de comida Ele.me, a IBM comprou a empresa de software de fonte aberta Red Hat, e a Salesforce comprou a MuleSoft, provedora de software que conecta aplicativos, dados e aparelhos eletrônicos.

Nos bancos de investimento, a tendência de buscar operações de nicho e mais inovadoras já ficou clara. “Essas tendências são cíclicas. Há 10 anos, as grandes multinacionais de consumo estavam privilegiando ganho de escala com marcas globais, como ter uma única marca de maionese ou de sabão em pó”, diz Rodrigo Mello, diretor do banco de investimento Greenhill no Brasil. “Isso mudou em alguns casos. Há dois anos, a Unilever comprou a Mãe Terra, uma empresa com faturamento relativamente pequeno para uma multinacional e que atua em um segmento que a Unilever não tinha em outro país, pela especialização e conhecimento.”

Essas transações acabam tendo múltiplos mais elevados que a média das transações por escala. Enquanto as operações por busca de sinergia são medidas majoritariamente em múltiplos de geração de caixa, que ficam entre 6 e 12 vezes, a medida das transações de escopo tem sido por receita — já que muitas vezes elas ainda não têm rentabilidade, quando são empresas de novas tecnologias, principalmente. O levantamento da Bain aponta que as transações tiveram múltiplo de até 25 vezes a receita no ano passado.

“Essa mudança de perfil de transação traz um desafio para as companhias. Aquisições por escopo são mais difíceis de implementar”, ressalta Castellini. Além do desafio tradicional de integração, as empresas precisam incorporar equipes muito distintas e modelos de negócio com estratégias diferentes e que demandam outro tipo de habilidade e agilidade de gestão. No passado, o que muitos grandes grupos faziam era uma aquisição para engolir um concorrente e tirá-lo do mercado — uma vez absorvido, o negócio acabava se tornando irrelevante perto da atuação geral da compradora. Um exemplo citado por especialistas foi a compra da corretora Ágora pelo banco Bradesco, há 10 anos. Era uma corretora grande, considerada inovadora, mas com importância periférica no volume de negócios do Bradesco — no ano passado, o banco voltou a investir nesse segmento.

Uma das formas que as companhias têm encontrado para buscar novas tecnologias e serviços e pagar menos tem sido investir por meio de fundos de venture capital ou de compras diretas de participações em start-ups. O investimento corporativo em venture capital aumentou em quatro vezes nos últimos cinco anos. “É como o Cubo, do Itaú, que ajuda a desenvolver start-ups e o banco eventualmente compra algumas delas”, diz Castellini. Para as empresas de modelo tradicional, é uma forma de estar mais próxima às novas capacidades e não ser surpreendido pelo uso de inovações na concorrência e também uma forma mais barata, por vezes, do que desenvolvê-la internamente.

Segundo Mello, da Greenhill, para muitas companhias não justifica pagar um múltiplo de potencial crescimento se, quando a empresa for adquirida, ela pode perder parte do fôlego dentro de uma estrutura de negócios maior. “A operação pode ser muito pequena dentro de uma estrutura gigantesca. Não é todo comprador que vai conseguir extrair valor de inovações”, diz o executivo.

Apesar de escopo ter superado a escala, essa ainda é uma razão muito importante para as operações, especialmente no Brasil. “A transação entre Fibria e Suzano, a maior do Brasil, é por escala e ganhos de sinergia”, ressalta Castellini. A consultoria ainda não notou um aumento no ritmo de operações em janeiro, mês com volume similar ao do ano passado. “Mas o ritmo de operações deve aumentar, considerando o plano de governo para venda de ativos estatais e cisão de companhias e o efeito que isso tem na atração de investidores estrangeiros para outras transações também”, avalia o sócio da Bain. “Ainda é cedo para falar em volume, mas a expectativa é de aceleração.”

Fonte: Valor Econômico 

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