Empresário, Não Culpe o Mercado!

Lendo a biografia de Alex Ferguson, um dos maiores e mais vencedores técnicos de futebol do mundo e 26 anos à frente do Manchester United, escrita em parceria com seu amigo Michael Moritz, investidor e sócio da Sequoia Capital, uma passagem me chamou atenção: “Qualquer estudante de administração, negócios ou economia, sabe que existem poucos grupos capazes de ser bem-sucedidos por um longo período de tempo. Basta pensar em todos os restaurantes, hotéis, bares, padarias e lojas de brinquedos nas ruas principais que já tiveram um público cativo e depois fracassaram à medida que seus padrões caiam ou que as preferências do público mudavam.”

“..nos Estados Unidos basta uma olhada no índice Dow Jones 30 para notarmos as vicissitudes do tempo. Apenas sete companhias que figuravam no índice em 1976 ainda fazem parte dele”(ALEX FERGUSON, 2015, pág. 294). Esta afirmação, frente aos fatos, nos leva a refletir como é difícil entender e viver o mundo empresarial atualmente.Não adianta apenas ter ambição, conhecimento, uma boa ideia e ser empreendedor. Muitos tinham isto no passado e sucumbiram. A desculpa mais comum é que fracassos ocorrem e que tais empresas, em algum momento, foram engolidas pela força do mercado e da concorrência, foram eliminadas pela evolução tecnológica ou pela própria obsolescência de seus produtos.

Decisões erradas, vaidades, briga entre sócios, sucessões mal sucedidas e fusões e aquisições desastrosas são outras situações que levaram empresas a quebrarem e desaparecerem do mercado. As convicções dos donos das empresas e suas tradições enraizadas, por anos ou décadas, moldaram as corporações e funcionaram, através de um padrão de gestão muitas vezes peculiar, mas eficiente, criando um modelo de governança único que atravessou crises e fez a empresa gerar lucros e sobreviver aos dias de hoje.

A expressão dessa realidade está vinculada a decisão natural do dono de passar a empresa de pai para filho, mantendo a qualquer custo o controle familiar. O filho estudava fora para voltar e cuidar dos negócios da família e assim os filhos dos filhos, num ciclo que atravessava gerações. Muitos grupos – grandes corporações – possuem essa realidade e são muito admirados por suas histórias e conquistas, mas não sobreviveriam hoje sem um modelo de gestão profissional e forte apoio técnico.

No entanto, temos de lembrar que as grandes corporações representam, em média, no mundo – e no Brasil não é diferente – em torno de 5%. Querer ser protagonista de um mundo novo não quer dizer que o jovem negue sua história familiar empresarial, mas apenas não se vê na mesma rotina e desafios de seus progenitores. O empresário tem de estar aberto a testar novos modelos de negócio e a rever continuamente suas estratégias e ações.

Como líder, ele deve estar aberto aos desafios de um mundo altamente tecnológico e globalizado, mas sem perder a essência das relações humanas, onde realmente acontecem as trocas de experiências, de idéias e de conhecimento. Riscos haverão em todas as tomadas de decisões, cabe medí-los e enfrentá-los para não usar isto como justificativa a inércia.

O medo deve estar centrado na obsolescência dos produtos e serviços, na preguiça, na acomodação e na espera sem fim de que os filhos voltem para receber o jaleco e as ferramentas usadas pelo avô. Culpar o mercado e não estar aberto a novas experiências certamente não foi o que fez as sete empresas que ainda permanecem no índice Dow Jones 30.

Fabrício Scalzilli

Sócio da Nello Investimentos

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