Do anonimato ao valor de US$ 1 bilhão!

Educação no Ceará é coisa que vem sendo levada a sério. Os bons resultados são fruto de políticas públicas bem-sucedidas e de um longo histórico de boa preparação oferecida pelos colégios privados locais. No epicentro dessa tradição está uma briga de família. Desde que cortaram relações, no início dos anos 2000, os irmãos Tales de Sá Cavalcante e Oto de Sá Cavalcante lideram os dois principais grupos de ensino básico privado do Ceará e se tornaram os campeões nacionais em aprovação no ITA.

Antes da rivalidade havia a sociedade. O pai de Tales e de Oto, Ari de Sá Cavalcante, assumiu a direção do Ginásio Farias Brito, em Fortaleza, em 1941, onde também era professor. Com a morte de Ari em 1967, coube à viúva, Hildete de Sá Cavalcante, e aos cinco filhos dar continuidade aos negócios. Quando a matriarca morreu em 2001, o Farias Brito era um grupo de quatro colégios na capital cearense, com 12 200 alunos, e já era conhecido pela excelência no ensino. O ano foi marcado pela cisão nos negócios, motivada por desavenças no modelo de gestão e na visão de futuro de Tales e Oto.

Cada um ficou com dois colégios e parte dos alunos. Tales ficou com a marca Farias Brito e Oto de Sá ficou com outras duas escolas e adotou o nome Ari de Sá para seu negócio, “Sou engenheiro e até então tocava a construtora da família. Com a divisão, consegui me envolver mais com educação”, diz Oto de Sá. Hoje, o grupo Ari de Sá tem quatro unidades de ensino e 8 000 alunos (cada um tem também uma faculdade).

Para quem já atua no ensino básico, há duas formas de crescer: abrindo mais escolas ou exportando o sistema de ensino para colégios independentes. Nisso a família de Ari de Sá saiu na frente. Depois de trabalhar na consultoria McKinsey e fazer mestrado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Ari Neto, filho de Oto de Sá, inspirou-se nos colégios para criar o SAS, um dos sistemas de ensino básico que mais crescem no Brasil.

Em 2004, foi estruturado o sistema de ensino SAS, baseado na experiência de sua escola, e que se tornou o grande motor de expansão dos negócios que daria origem à Arco. Em 2017, o SAS cresceu 43% e vendeu material didático para 700 escolas, com um total de 230 000 alunos — ou seja, dez vezes o tamanho dos colégios do pai. Os negócios são separados, apesar de Oto ser presidente do conselho de administração da Arco Educação, holding dona do SAS e de outros serviços de educação.

Arco Educação saiu, em apenas um dia, do quase completo desconhecimento por parte dos investidores, analistas de ações e do mercado corporativo em geral para o sucesso internacional. Em 25 de setembro, a empresa abriu o seu capital na Nasdaq, a bolsa americana favorita das empresas de tecnologia e das startups. No processo, a novata arrecadou US$ 194,5 milhões, cerca de R$ 780 milhões, pela negociação de 22,8% de participação no negócio. O restante das ações permanece com a família Sá Cavalcante, fundadora da companhia, e com o fundo americano de private equity General Atlantic. Entre os oito bancos de investimentos escolhidos para coordenar o IPO, a grande maioria era internacional, o que deixou o processo fora do radar de muita gente do mercado brasileiro. “A opção pela Nasdaq nos coloca em contato com um ecossistema de tecnologia formado por empresas e investidores que podem contribuir para construirmos uma das melhores companhias de educação do mundo”, disse o empresário de 38 anos Ari de Sá Neto, fundador e CEO da Arco.

A estratégia de se expor ao investidor internacional, antes mesmo de ficar conhecida por aqui, deu certo para a Arco. Até a quarta-feira 10, as ações da empresa já tinham subido 29%, elevando o valor de mercado dela para US$ 1,1 bilhão. Essa valorização coloca a startup no seleto grupo de unicórnios brasileiras, como são chamadas as novatas com valor de mercado igual ou superior a US$ 1 bilhão.

Em 2017, o faturamento da Arco ficou em R$ 244,4 milhões, com lucro de R$ 43,6 milhões. Neste ano, o faturamento foi de R$ 195,1 milhões, apenas no primeiro semestre.

Alguns movimentos do passado indicam o caminho que a Arco pode seguir com o dinheiro captado. Entre 2015 e 2016, a empresa adquiriu participações minoritárias em três negócios: a escola de instrução suplementar International School, a companhia de sistemas educacionais WPensar e a plataforma de conteúdo Geekie. “Os investimentos feitos seguem o nosso foco de atuação, que é o desenvolvimento de soluções para escolas de educação básica privada”, afirma Ari de Sá Neto. “As empresas em que investimos acompanham essa premissa, do mesmo modo que startups de tecnologia educacional também estão totalmente alinhadas com os nossos objetivos.”

Atualmente, a empresa detém a sétima posição do ranking de sistemas de ensinos, segundo a Hoper Educação, que é liderado pelo grupo Positivo, o Somos Educação (comprado pela Kroton), o Objetivo e o britânico Pearson. O mercado alcança 3,4 milhões dos 9 milhões de alunos do ensino básico em escolas privadas. “O número de crianças e jovens matriculados está diminuindo, por conta do envelhecimento da população”, diz Polizel. “Mas sempre que ocorre um crescimento econômico aumentam as inscrições em escolas de qualidade e que utilizam sistemas do mercado”, afirma o especialista. É tudo que a Arco precisa para aumentar o seu triunfo.

Fonte: Isto é, Estadão, Valor Econômico

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