Comprar ou ser engolido é dilema na área de mídia

É comprar ou ser comprado. Essa é a conclusão à qual vêm chegando as empresas de mídia, diante da perspectiva de grandes nomes do setor ficarem ainda maiores após planos de fusão – como os da AT&T e Time Warner e os da Walt Disney e grande parte da 21st Century Fox – e da pressão de gigantes da tecnologia como Amazon, Apple e Netflix.

A revelação de que Rupert Murdoch, da 21st Century Fox, quer deixar o mercado de entretenimento injetou um novo sentimento de urgência entre empresas de mídia não tão grandes, como CBS e Viacom, que, depois de terem desistido de negociar uma fusão há um ano, decidiram na semana passada voltar a estudar uma combinação.

“Está claro que o recado passado por Disney e Fox é que o tamanho importa”, disse o diretor-presidente da Verizon, Lowell McAdam, a analistas na teleconferência feita em janeiro sobre os resultados da empresa de telecomunicações. A Verizon é apontada como possível compradora de vários ativos, como a Fox e a fornecedora de serviços a cabo Charter Communications.

Não é apenas a busca por escala que vem motivando o que se encaminha a ser um dos ciclos de fusões mais movimentados na história recente. A ascensão dos serviços de transmissão de vídeo, como Netflix e Amazon Prime Video, viraram a televisão de ponta-cabeça, derrubaram audiências e corroeram a receita publicitária. À medida que o setor lida com a mudança nos hábitos do consumidor, grandes distribuidores vêm consolidando e adquirindo donos de conteúdo, o que deixa expostos controladores de redes de TV, como CBS e Viacom.

“As empresas médias correm o risco de ficar espremidas em seus modelos econômicos pelos nomes muito grandes, a menos que consigam descobrir sua vantagem comparativa”, diz um executivo sênior de um banco de investimento em Nova York.

O setor vem sofrendo mudanças gigantescas há algum tempo. A AT&T, mais conhecida como operadora telefônica sem fio, sinalizou pela primeira vez suas intenções de ganhar escala na área de mídia com a compra da empresa de TV por satélite DirecTV, em 2014, por US$ 48,5 bilhões. Dois anos depois, fez uma aposta ainda maior ao propor a compra da Time Warner, dona da HBO, da CNN e do estúdio cinematográfico Warner Bros, por US$ 85,4 bilhões. O governo Trump entrou com ação para vetar o negócio por motivos de concorrência e o caso vai ser julgado em março.

Outros participantes menores também se mexeram, como a Discovery Communications, que comprou a Scripps Networks Interactive, dona da Food Network, por US$ 14,6 bilhões, e o estúdio de filmes Lionsgate, que comprou os canais a cabo Starz por US$ 4,4 bilhões. Há especulações também sobre a AMC Networks, rede por trás de sucessos como as séries “Mad Men” e “The Walking Dead”.

A CBS e a Viacom haviam negociado uma fusão no fim de 2016, quando a família Redstone – que tem participações controladoras em ambas as empresas – as convocou a analisar uma combinação para “reagir de forma ainda mais agressiva e efetiva aos desafios do cenário em transformação de mídia e entretenimento”. Mas as discussões foram abandonadas depois que ficou evidente que Les Moonves, diretor-presidente da CBS, se opunha à fusão, segundo pessoas a par do assunto.

A sorte das duas empresas divergiu desde que se desmembraram, em 2006. Canais de TV a cabo da Viacom, como MTV e Nickelodeon, foram particularmente atingidos e a empresa está em meio a uma reestruturação depois da confusa disputa de poder que levou a uma reformulação gerencial em 2016. A CBS, por outro lado, tem o canal de maior audiência dos EUA e buscou novas formas de receita oferecendo um serviço de streaming pela internet.

O anúncio na semana passada de que as duas empresas voltaram a cogitar uma fusão indica que à medida que o círculo de possíveis parceiros encolhe, elas não querem ficar sem cadeira quando a música acabar. Os investidores, contudo, mostraram cautela. As ações da CBS caíram 6% na sexta-feira e as da Viacom, 3%.

Executivos de banco de investimento especializados em mídia dizem que qualquer futuro acordo vai depender das aprovações das autoridades reguladoras para as compras propostas pela Walt Disney e AT&T. “Acreditamos que o resultado [da fusão AT&T e Time Warner] vai servir de teste para o resto do setor e poderia incentivar e acelerar fusões adicionais se aprovado pelo tribunal”, escreveram analistas do banco UBS em informe recente.

A Verizon, em particular, vai observar de perto o resultado da batalha jurídica da AT&T contra o Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Se o negócio da AT&T desandar, a Verizon – que até agora havia se dedicado a comprar ativos de mídia digital menores, como Yahoo e AOL – poderia se lançar a uma oferta pela Time Warner, segundo vários executivos de banco de investimento.

Como alternativa, acrescentam esses executivos, a Verizon poderia tentar combinar-se com a Charter Communications, segunda maior operadora de serviços a cabo dos EUA. A fusão lhe daria um claro canal de distribuição para concorrer melhor com a Comcast, maior operadora a cabo dos EUA, e a AT&T. “A Verizon precisa fazer algo grande”, diz um assessor que trabalhou de perto com a empresa de telecomunicações. “Ou eles fazem algo com a Charter ou correm o risco de ser comprados pela Comcast.”

Em suas recentes teleconferências sobre balanços, a Charter e a Comcast mostraram ter consciência do atual cenário mais ativo em fusões e aquisições.

“Pode haver mais oportunidades para que criemos mais valor para nossos acionistas, como fizemos com a NBCUniversal [grupo de mídia comprado pela Comcast em 2009]. Nesse sentido, não deveria ser surpresa que estudemos qualquer situação que apareça”, disse Brian Roberts, diretor-presidente da Comcast. Ele acrescentou, no entanto, que “não há nada” que sinta que “tenham que adquirir”.

O diretor-presidente da Charter, Tom Rutledge, seguiu linha parecida. “Se houver oportunidade de aquisições pelo preço certo, sempre vamos estar interessados em estudá-las”, disse.

Mesmo enquanto grupos de mídia e telecomunicações compram uns aos outros, eles não podem ignorar o elefante na sala. Amazon e Netflix vêm gastando pesadamente para produzir mais conteúdo e roubar espectadores da TV tradicional. Enquanto isso, Google e Apple dispõem dos recursos financeiros e tecnológicos para engolir ou esmagar até mesmo os maiores dos gigantes da mídia tradicional.

Até recentemente, o legado de Murdoch podia ser resumido pelo império que construiu. Agora, seu impacto mais duradouro poderá ser a reordenação em massa do setor desencadeada pela sua saída de cena.

Fonte: Valor

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