Como acompanhar investimentos na economia real

Uma das maiores preocupações do investidor comum – seja pessoa física ou empresa – é acompanhar, além das tendências e riscos do mercado, dados efetivos sobre os seus investimentos. Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (IBRI), em parceria com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), mostra que, apesar do avanço qualitativo e quantitativo de informações, os investidores ainda sentem falta de detalhes sobre dados básicos das demonstrações financeiras, tais como receitas e despesas das companhias. Se esse embate já existe com as companhia abertas, fiscalizadas por órgãos reguladores e com mecanismos de transparência e acesso a informação, imagine como acompanhar e controlar as operações de uma empresa de pequeno ou médio porte de capital fechado, com gestão profissional e/ou familiar, por exemplo.

Com a redução da taxa SELIC e o baixo retorno de fundos de investimento tradicionais, além das turbulências e maior risco em aplicar em investimentos com maior volaticidade – leia-se, por exemplo, bolsa de valores e fundos multimercados – investidores estão indo a campo identificar oportunidades na economia real. Mercado antes explorado apenas pelos fundos de private equity, este segmento passou a receber a atenção de family-offices, empresários de diversos segmentos e mesmo de pessoas físicas – todos em busca de oportunidades para investir em empresas privadas, geralmente sociedades empresárias limitadas e, de preferência, com grande potencial de crescimento.

Se vislumbrar uma tese de investimento atrativa nesse tipo de companhia não é fácil, mais desafiador será ter acesso a números e acompanhar os indicadores da empresa, geralmente devido à falta de uma estrutura de governança voltada ao investidor. Reuniões  acabam sendo mais informais, a visão estratégica e o plano de ação são coordenados direta e individualmente pelo dono ou por algumas pessoas do corpo diretivo e, em muitos casos, há ainda carência de indicadores financeiros. É comum se deparar com confusão patrimonial entre empresas do grupo e até mesmo certo grau de informalidade.

Por fim, a inexistência de auditoria externa confiável e eficaz acaba sendo a regra. Se grandes empresas ainda não possuem uma área dedicada exclusivamente ao departamento de RI, imagine companhias de capital fechado de pequeno e médio porte, cujas prioridades sempre foram o binômio foco no cliente e relação com seus fornecedores. A entrada de um investidor nesse tipo de empresa pressupõe uma mudança cultural e, acima de tudo, de procedimentos. A instalação de um conselho efetivo, com reuniões periódicas com pauta e ata, para acompanhamento da operação e alinhamento estratégico. Além do mais, um espaço efetivo para questionamentos e participação ativa dos investidores é fundamental. As empresas desse perfil, que querem acessar investidores, neste momento, devem buscar melhorias e mais clareza nas suas demonstrações financeiras. Devem também evitar confusão patrimonial entre sócio, família e empresa, além de agir com transparência e proximidade com o sócio investidor que estará chegando. O investidor quer retorno financeiro, enquanto o empresário quer, dentre várias coisas, sustentação do negócio, crescimento e capital para execução de novos projetos, pensando ambos no ganho de mercado, valorização da companhia e, talvez, a venda futura de toda a operação. O investidor, por sua vez, deverá ter a consciência que, diferentemente de acompanhar posições na bolsa ou em fundos de investimento, ele deverá ter uma proximidade real com o negócio, mesmo não participando do dia a dia da companhia. Este poderá indicar um representante, assumir uma posição na área financeira ou em outro setor estratégico ou sensível da empresa, mas, certamente, terá de baixar ao nível operacional para ter segurança de que o plano estratégico e a visão futura do negócio estarão sendo cumpridos.

Fabricio Scalzilli
Sócio da Nello Investimentos

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