BlackRock põe sustentabilidade no centro da estratégia de investimento

BlackRock põe sustentabilidade no centro da estratégia de investimento

“Estamos à beira de uma mudança estrutural nas finanças”, afirma o CEO e presidente do conselho da BlackRock, Larry Fink. Com essas palavras o chefe da maior gestora de recursos do mundo, com US$ 6,96 trilhões em ativos sob administração, assinalou a motivação para uma das maiores evoluções estratégicas do grupo, anunciada em sua carta anual aos CEOs de empresas investidas: colocar a sustentabilidade no centro das decisões de investimento.

“As evidências sobre o risco climático estão forçando os investidores a reavaliar os pressupostos básicos sobre as finanças modernas”, complementa o executivo. O tradicional texto enviado às lideranças empresariais globais é um evento aguardado por investidores e executivos no mundo todo. E não apenas pelo peso da gestora, mas também porque a carta de Fink funciona como uma espécie de termômetro dos temas que podem ditar os rumos do grande capital nos próximos anos e, eventualmente, no longo prazo.

O tema de sustentabilidade tem aparecido com destaque nas cartas de Fink desde, pelo menos, 2016. Mas já em 2012 o CEO da BlackRock chamava atenção para assuntos de governança corporativa como fator necessário para a perenidade e o desempenho no longo prazo.

O assunto, no entanto, assume um senso de urgência na carta deste ano como nunca havia ocorrido em edições anteriores. Pela primeira vez, a gestora enviou dois documentos diferentes: um destinado aos CEOs, assinado apenas por Fink, e outro para clientes da firma, que leva o carimbo do comitê executivo global da BlackRock, encabeçado por Robert S. Kapito e pelo próprio executivo-chefe.

Além de sublinhar a necessidade de as empresas passarem a considerar as dimensões ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês) em seus clientes, a maior gestora do mundo anunciou diversas mudanças nas estratégias de investimentos e de produtos oferecidos.

“Acreditamos que a sustentabilidade deve ser o nosso novo padrão de investimento”, afirma o comitê executivo na carta aos clientes. A BlackRock planeja tornar a estratégia baseada no ESG a “oferta padrão em soluções”.

Segundo o documento, a gestora vai passar a oferecer “versões sustentáveis dos principais modelos de portfólios, incluindo a nossa gama de modelos de ‘target allocation’ [fundos que buscam meta de retorno por meio de diversificação em classes de ativos no longo prazo]”. Conforme a gestora, “esses modelos utilizarão exposições a índices ambientais, sociais e de governança (ESG), em vez das exposições em índices tradicionais ponderados por limites de mercado”.

A BlackRock vai ainda lançar versões sustentáveis para os fundos de índices com cotas negociadas em bolsa (ETF, na sigla em inglês) iShares neste ano. A firma pretende ainda duplicar a oferta de ETFs sustentáveis nos próximos anos para 150 portfólios.

A gestão ativa também vai passar a seguir a cartilha da sustentabilidade. De acordo com a firma, “até o final de 2020, todos os portfólios ativos e estratégias de consultoria estarão totalmente integradas a critérios ESG”. Dentro dessa guinada, os gestores serão responsáveis pela exposição aos riscos ESG e por documentar como essas considerações afetaram decisões de investimento.

A carta explica ainda que o Grupo de Risco e Análise Quantitativa (RQA) da BlackRock, responsável por avaliar todos os riscos de investimento, de contraparte e operacionais da empresa, vai analisar o risco ESG. “Essa integração significará que o RQA – e a BlackRock como um todo – considerará o risco ESG com o mesmo rigor com que analisa medidas tradicionais como os riscos de crédito e de liquidez.”

A mudança de filosofia de investimento vai provocar ainda a realocação de recursos, com saída de setores que a gestora enxerga como não alinhados aos novos critérios. A carta cita como exemplo o setor de carvão térmico, “significativamente rico em carbono, tornando-se cada vez menos viável economicamente, e altamente A BlackRock vai zerar até o fim deste ano nos portfólios ativos os investimentos diretos em dívida e ações de grupos em que mais de 25% das receitas proveem da produção de carvão térmico. Além disso, a gestora reforça a intenção de aumentar alocações em empresas que trabalham na transição para uma economia com baixa emissão de carbono, bem como no investimento de impacto, ou seja, em companhias que, além do lucro, geram benefícios à sociedade.

Na carta aos CEOs, Larry Fink foi enfático: investidores “estão procurando entender tanto os riscos físicos associados às mudanças climáticas, como também as formas pelas quais as regulamentações terão impacto nos preços, custos e demanda em toda a economia”. Para Fink, “as questões estão conduzindo uma reavaliação profunda do risco e do valor dos ativos”.

O executivo reforça ainda o tema que dominou a sua carta do ano passado, ou seja, a necessidade de as empresas irem além da busca pelo lucro. “Uma empresa farmacêutica que aumenta impiedosamente os preços, uma empresa de mineração que reduz a segurança, um banco que não respeita seus clientes – essas empresas podem maximizar os retornos a curto prazo. Mas, como temos visto repetidas vezes, essas ações que prejudicam a sociedade irão prejudicar a empresa e destruir o valor aos acionistas.” Para Fink, “em última análise ter um propósito é o motor da rentabilidade a longo prazo”.
Fonte: Valor Econômico

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