Aportes e sinergias bilionários preparam expansão da Suzano

No primeiro encontro com analistas e investidores depois de consumar a fusão com a Fibria, o Suzano Day em Nova York, a Suzano anunciou ontem os grandes números da operação que eram aguardados pelo mercado, em especial as sinergias, e confirmou que está pavimentando as vias para uma nova rodada de crescimento. A companhia não revela detalhes do plano nem cronograma estimado, mas tem na mesa um leque de alternativas que vão desde a ampliação em celulose de eucalipto no Brasil até a potencial compra de ativos de papel ou celulose de fibra longa no exterior, passando pelo desenvolvimento de biomateriais que poderão substituir o plástico.

Com capacidade produtiva de 10,9 milhões de toneladas por ano de celulose de mercado e papel, 1,3 milhão de hectares de florestas e receita líquida de quase R$ 32 bilhões em 2018, a “nova” companhia investirá R$ 6,4 bilhões neste ano, dos quais R$ 2,4 bilhões para expansão da base florestal, modernização das operações e terminais portuários. As sinergias operacionais derivadas da integração com a Fibria, por sua vez, estão previstas em R$ 800 milhões a R$ 900 milhões ao ano, antes de tributos, e serão permanentes, considerando-se as áreas florestal, suprimentos, logística e comercial, despesas administrativas e gerais e investimento.

Cerca de 40% desse valor será alcançado em 2019, com captura de 100% a partir de 2021. A companhia não divulgou o valor presente líquido (NPV, na sigla em inglês) do ganho, estimado em até R$ 15 bilhões por analistas, mas informou que, além do operacional, haverá sinergias tributárias de R$ 2 bilhões ao ano na próxima década. Em entrevista ao Valor, o presidente da Suzano, Walter Schalka, explicou que a companhia poderá deduzir R$ 26,5 bilhões do imposto de renda ao longo dos anos, referentes à diferença de valor entre o que foi pago pela Fibria e o valor de livro da empresa, que será incorporada em 1º de abril e deixará de existir como entidade independente.

Conforme o executivo, a Suzano seguirá direcionando um volume relevante de recursos para aquisição de terras e florestas. “Fizemos operações no primeiro trimestre e continuaremos a fazer”, disse o executivo. No ano passado, os investimentos para essa finalidade totalizaram R$ 1,3 bilhão e, em 2019, estão estimados em R$ 1,4 bilhão – o segundo maior valor do orçamento, atrás dos R$ 4 bilhões que serão dedicados a manutenção das operações. No ano passado, a companhia já havia adquirido uma área plantada da Duratex e uma parcela remanescente do pagamento está refletida no investimento estimado.

Segundo Schalka, não é possível afirmar se os valores vistos entre 2018 e 2019 serão mantidos. “É mais uma questão de oportunidade, então não dá para dizer se vai se manter nesse nível”, disse o executivo, respondendo a um analista durante o evento em Nova York. Já os investimentos em manutenção tendem a cair nos próximos anos, diante das sinergias que serão geradas com a fusão com a Fibria.

A companhia poderá avaliar a compra de ativos de papel ou de celulose de fibra longa fora do país 

Schalka disse que as aquisições de terras e florestas são motivadas pelos esforços de redução do raio médio (distância entre fábrica e florestas), com impacto no custo caixa de produção da celulose, e como preparação para uma futura expansão. Em termos de raio médio, a meta é chegar a 156 quilômetros, ante 240 quilômetros atualmente. Todas as regiões em que há operações da Suzano são candidatas a potenciais transações.

Já o investimento em novas fábricas de celulose ou expansão de unidades já existentes é uma das opções de crescimento que estão sendo avaliadas. Caso decida levar adiante um projeto de crescimento orgânico, a Suzano tende a executá-lo em São Paulo ou em Mato Grosso do Sul, onde já existe excedente de florestas.

A companhia poderá ainda avaliar a compra de ativos de papel ou de celulose de fibra longa fora do país – “desde que tenham escala e gerem competitividade natural” – e avançar no segmento de biomateriais, cujo potencial está associado à tendência de substituição do plástico em diferentes aplicações.

Apesar desse plano, a companhia mantém o foco imediato na redução da alavancagem financeira. A meta é voltar aos níveis vistos antes da operação com a Fibria, com redução do índice, medido pela relação entre dívida líquida e resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) em dólar, para algo entre 1  vez e 3 vezes, segundo o diretor financeiro e de relações com investidores, Marcelo Bacci. Hoje, a dívida líquida corresponde a 3,1 vezes o Ebitda anualizado e não há prazo específico para essa meta.

Ao mesmo tempo, a Suzano estabeleceu um alvo para a dívida líquida, que estava em US$ 13,5 bilhões no fim do ano passado. O objetivo é reduzi-la a US$ 10 bilhões. Conforme Bacci, a companhia manteve a política de dividendos existente antes da fusão com a Fibria, que é atrelada à geração de caixa operacional e prevê pagamento mínimo equivalente ao menor valor entre 25% do lucro líquido e 10% da geração de caixa operacional.

Importações de aparas de papel na China, caíram de 30 milhões para 17 milhões de toneladas entre 2012 e 2018

Do ponto de vista de mercado, a expectativa da companhia é positiva. De acordo com o diretor comercial de celulose, Carlos Aníbal, a demanda global de celulose deve crescer ao ritmo de 1,4 milhão de toneladas por ano até 2023, 70% das quais de fibra curta. “A China cresceu 1,1 milhão de toneladas ao ano, considerando-se a demanda de fibra curta e longa desde 2005, e deve manter esse ritmo nos próximos anos”, afirmou.

A aposta na manutenção da demanda chinesa é baseada no crescimento do consumo de tissue (papel para fins sanitários) no país asiático, decorrente do avanço da urbanização e do consumo per capita ainda muito baixo.

Além disso, questões ambientais devem levar ao fechamento de quase 5 milhões de toneladas por ano de capacidade instalada de tissue na China, que serão substituídas por máquinas menos poluentes, maiores e que consomem fibra virgem, o que deve elevar a demanda por celulose de eucalipto.

Ao mesmo tempo, as importações de aparas de papel na China, que estavam em 30 milhões de toneladas em 2012 e caíram a 17 milhões de toneladas em 2018, podem ser reduzidas novamente, à medida que o governo chinês poderá reduzir as cotas de importação que permitidas.

“Os volumes já começaram a fluir na China”, afirmou Aníbal. Contudo, ainda há dúvidas quanto ao ritmo de retomada das compras. Em conversas com clientes chineses, disse o executivo, as informações repassadas à companhia indicam que a expectativa é que a guerra comercial entre China e Estados Unidos seja encerrada em breve e as medidas fiscais de estímulo, anunciadas recentemente, comecem a ter efeito na economia local entre o segundo e o terceiro trimestres.

Na Europa, comentou Aníbal, questões macro, como o Brexit e a evolução da economia alemã, contaminam o sentimento de maneira geral e podem trazer alguma volatilidade. Contudo, a companhia não recebeu indicações de retração da demanda.


Fonte: Valor Econômico

Por Stella Fontes

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